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A santíssima trindade


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O governo Lula vai sangrar até o final. Não se trata de previsão catastrófica. A montanha de denúncias, suspeitas, histórias e versões que se acumulam, jogando a agenda dos Poderes Executivo e Legislativo numa gigantesca esplanada de investigações, é tão sinuosa que deixará o ente governamental estropiado. Para chegar incólume ao vértice eleitoral, Lula teria de escapar do fio da navalha e equilibrar a “santíssima trindade” que gera a eficácia dos governos: a gestão política, a gestão social e a gestão macroeconômica. A primeira está em frangalhos, a segunda é rebotalho e a terceira é a única que anda nos trilhos. Conseguirá esta fortalecer as outras duas, viabilizando e dando eficácia à administração, somando apoios políticos, multiplicando aplausos sociais e diminuindo o teor crítico? Pouco provável.

A paisagem é de devastação: evidências de corrupção na administração federal crescem. A bandeira ética do PT é espezinhada. A militância petista desapareceu das ruas e a cúpula, como zumbi, saltita para sair do olho do furacão. O arsenal investigativo formará círculos concêntricos que baterão nas margens das eleições. O Congresso, transformado em babel de contundências, ganha jeito de delegacia de polícia. A fumaça da fogueira irrita os olhos da população de todas as classes e em todos os rincões, chegando em lufadas coloridas, todos os dias, pelas redes de TV. Isolado sobre um altar carismático, o presidente da República assume a posição de maestro de orquestra desafinada.

A gestão política dará o tom maior da administração. Tudo se fará para preservar a governabilidade, prevendo-se, em conseqüência, uma inflação de pressão sobre o presidente e a expansão das taxas de estresse nos atores. A bem da verdade, a sangria do governo tem ajuda de alguns coveiros. A nova fisionomia que Lula quer imprimir à administração, salvo-conduto para atenuar impactos sobre a própria imagem, já nasce contaminada pelo vírus fisiológico. A confiabilidade pública, a accountability do gosto das democracias e ansiada por Lula para tapar buracos do governo, não se sustentará.

As massas críticas expelidas pelas investigações no Senado, na Câmara e na Polícia Federal, formando bolhas de contrariedade, dificultarão ao cidadão comum distinguir quem é quem nas cavernas da pilhagem. Mas não lhe escapará a impressão de que a roubalheira é grande; parlamentares estão comprometidos; Roberto Jefferson é o bandido que virou mocinho; e o PT é quem tem mais culpa no cartório. Perguntas-chave balizarão o discurso social: quem será cassado? O Parlamento terá coragem de fazer um haraquiri político, rasgando o próprio ventre e cassando alguns? Lula será blindado com o escudo de xerife que acaba de encomendar, com pacotes anticorrupção, demissão de pessoas e ordens para punir culpados? E, se Dirceu for pego com a boca na botija, Lula terá compaixão ou virará as costas à sua crucificação?

O tom maior da crise canibalizará qualquer nota que se der à gestão social, imprimindo força ao pensamento de que o governo petista, não conseguindo satisfazer demandas sociais, acabará queimado na pira da reversão das expectativas. O balanço social é um balaio vazio. Começar de novo, ah!, não vai dar certo. Faltaria tempo para colher resultados. O cinturão formado para amarrar o governo Lula no pilar da administração participativa - o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social - está esgarçado. Participantes se frustraram.

A superconcentração de tarefas nos tempos do comissário José Dirceu amarrou o governo. Dilma pode ser até muito capaz, mas não terá tempo para tirar o atraso. Sobrará, ao final, o rescaldo da gestão econômica, significando rigor monetário e controle da inflação, base da estabilidade. Mas a cartilha tecnocrática da economia não conseguirá salvar a gestão política e a gestão social, deixando a trindade lulista em desarmonia. Na consciência nacional germina a idéia de que Lula não conseguiu, até agora, ajudar Sísifo, condenado pelos deuses ao castigo eterno de levar a pedra ao topo da montanha. Havia a esperança de que Lula fosse capaz de dar um empurrãozinho no pobre condenado, acabando com o castigo de voltar a pegar a pedra no sopé da montanha. O brasileiro já começa a se imaginar na pele de Sísifo.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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