Pesca & Lazer

História de Pescador: Cade os peixes?


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Eu já participei de grandes pescarias, mas entrei também em cada barca furada que vou te contar. Já passei noites ao relento olhando para as estrelas, sem qualquer forro, cobertor e uma vez usei como travesseiro uma latinha de óleo de cozinha. Outra vez eu adormeci sobre troncos de eucalipto, com as pernas para cima e cabeça para baixo, após um longo trajeto de barco desde Avaí até Pongaí, mas foi só passar a canseira e eu já estava pronto para outra.

E foi assim que eu pensei em realizar uma grande pescaria com o mano velho Flavio, seus filhos e outros que eu nem me lembro mais.

O Flavio me disse que conhecia um lugar que era o próprio paraíso junto ao rio Batalha em Avaí, onde era possível pescar ao mesmo tempo no rio e numa linda lagoa ali existente.

“Você escolhe o ponto, mas se de repente mudar de idéia, é só fazer um giro de 180 graus e basta”, garantiu ele.

Fomos no meu carro até próximo do ponto indicado, depois fizemos um trecho a pé, mas quando chegamos na margem da tal lagoa que deveria ser muito bonita, eu me arrepiei. Ela era horrível, sombria e fedia a bosta de capivaras, de porco-do-mato, de jacarés e outros animais.

Eu achei que iríamos procurar outro caminho por outro lado, mas estava enganado de novo, porque o mano velho foi entrando ali mesmo, foi andando, foi avançado sem medo e saiu do outro lado do lodo com aquela sujeira impregnada até aos colarinhos, enquanto eu não acreditava no que estava vendo. “Quem será o próximo doido, porque eu não vou”, pensei comigo mesmo. Mas o sobrinho Sidney foi atrás do seu pai, depois foi o seu irmão, depois foi o neto e por último foi o bisneto, enquanto eu fiquei parado no mesmo lugar sem saber o que fazer.

Enquanto eu pensava, eles avançavam afundando aqui, afundando ali e depois de uns 20 minutos, o Flavio me chamou: “Pode vir seu medroso, nós já achamos o rio Batalha”. Mas eu continuava no mesmo lugar pensando sobre o que fazer naquela situação, pois se não os acompanhasse, adeus pescaria.

Resolvi então entrar também naquele lodo e percebi que a coisa era bem pior do que eu imaginara. Havia vários canais em zig-zag e a cada passo que eu dava surgiam bolhas fétidas do fundo e os meus passos causavam um estranho balançar nas árvores ao redor. Depois de quase meia hora eu os alcancei no exato momento que começou uma chuva torrencial.

Nos estávamos todos imundos até o pescoço e também muito sem graça com aquela chuva toda, menos o mano velho que ainda disse: “Eu estava com tantas saudades deste lugar, mas agora que eu já vi, vamos voltar para casa”. Foi então que eu entendi sobre o fazer um giro de 180 graus e basta. Ou seria bosta?

Então começamos aquele terrível trajeto de volta e quando saímos de lá parecia que tínhamos saído de uma fossa, tal a nossa sujeita e mal-cheiro e eu ainda não sabia como entraríamos no meu carro daquele jeito.

Me carro em um Corcel ano 73, muito bem conservado, estava encerado, brilhando, tinha forros de chenile azuis nos assentos e até faixa branca nos pneus ele tinha”. “O que será que eu vou dizer lá em casa”, pensei.

Algumas horas mais tarde, já de volta em Bauru, após fazer a entrega em domicílio de todo o pessoal, cheguei em casa e já fui levando bronca da minha mulher que nem quis ver a sujeita e disse que era para eu mesmo lavar a minha roupa, sapatos, meias, forros ou que jogasse tudo no lixo, e quanto a mim, ela nem queria ver, mas assim mesmo ainda perguntou: “Cadê os peixes”’?

Eu que já perdera a calma há muito tempo, ainda respondi:

“Não há peixes. O Flavio falou que quando estivéssemos na beira do rio e se de repente mudássemos de idéia, era só darmos um giro de 180 graus e bosta”.

Eurico de Oliveira, aposentado, pescador e contador de histórias.

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