O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, é taxativo ao afirmar que um “verdadeiro crime ambiental” foi o principal causador de um dos maiores processos erosivos instalados na cidade. Enquanto contempla, perplexo, a enorme boçoroca da erosão do Jardim Jussara, com 700 metros de comprimento e até 15 metros de profundidade em alguns pontos, Brito explica o “crime” que levou àquela situação.
“Houve um enorme desmatamento na nascente do córrego Água do Sobrado para a construção do núcleo Joaquim Guilherme. E aí uma chuva forte deu início à erosão. Foi realmente um crime ambiental e a natureza respondeu de forma violenta”, avalia Brito, que há décadas, até por dever de ofício, acompanha de perto as erosões de Bauru.
O coordenador da Defesa Civil lembra que tal situação já causou uma série de danos e prejuízos à cidade. Ele cita que o processo de assoreamento do leito do córrego já causou a destruição das passagens nas ruas Cuba e Mara Lúcia. É também um dos principais causadores das graves enchentes que afligem a região da avenida Alfredo Maia, local onde se localiza a foz do córrego e de onde já foram retirados mais de 30 mil caminhões de areia.
Brito explica que algumas ações de contenção realizadas na erosão até ajudaram a frear o processo de afundamento da boçoroca. “A construção de um cachimbo (estrutura de concreto que segura até 40% do material que seria carreado córrego abaixo) vem cumprindo seu papel, mas a erosão agora vem apresentando um crescimento lateral preocupante”, revela.
Ele explica que, por enquanto, a situação ainda não chamou tanto a atenção das autoridades porque o crescimento do buraco está concentrado na margem menos habitada da erosão (ao lado da Vila Ipiranga).
O desgaste lateral, no entanto, já “comeu” uma trilha que vinha sendo utilizado por moradores que passam pelo local. “Mas ela (a erosão) é imprevisível e pode muito bem, depois de uma chuva forte, começar a ‘caminhar’ para o outro lado (na direção do Jardim Jussara). Além disso, como foi aberta em questão de horas, uma chuva forte pode provocar uma ‘erosão monstra’”, acredita. “A erosão é o câncer do solo que, como a doença, destrói o organismo onde ela está atuando”, compara.
A preocupação de Brito cresce ainda mais com a constatação de que o local vem se tornando uma espécie de “atração turística” para moradores das imediações. “Tem mães que trazem seus filhos para apreciar isso aqui”, diz, apontando para o enorme canyon formado. “Não sabemos exatamente como está a condição destas encostas, que podem ruir a qualquer momento”, completa.
Além das clássicas soluções para o problema, como promover a adequada drenagem do local, estabilização das margens com reflorestamento e reaterro, Brito acredita que o ideal, neste caso, seria a desapropriação da área e sua transformação num parque.
Como responsável pela Defesa Civil, Brito cita ainda outras erosões que precisam ser vigiadas com atenção. A do Núcleo Bauru 16, que no passado chegou a interromper o trânsito na linha férrea, está voltando a preocupar, frisa. Ele também chama a atenção para a erosão existente há anos no Parque Jaraguá e que coloca cerca de 80 barracos em situação de risco a cada chuva forte.
Problema cultural
Além dos fatores que naturalmente contribuem para o aparecimento das erosões em Bauru, como a condição do solo e as equivocadas intervenções do homem, Brito lembra que grande parte do problema é causado por questões culturais fortemente arraigadas na população brasileira.
A primeira delas é a insistência com que a população joga lixo nas ruas e nas próprias erosões. “Não existe ação de controle ou combate às erosões e às inundações que resista ao lixo”, comenta.
Brito lembra ainda que, tanto na esfera pública quanto na privada, a tendência pela impermeabilização do solo é crescente. Segundo ele, é normal o poder público asfaltar grandes áreas sem se preocupar em deixar canteiros.
“Mas o que mais me assusta em minhas andanças são moradores de favelas que se esforçam para cimentar totalmente seus quintais. Sem espaço para se infiltrar na terra, a água da chuva é direcionada para as ruas ou, pior, para o esgoto”, constata.