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Entrevista da Semana: Força teme que crise afete sindicatos

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

A Força Sindical mantém uma postura crítica cobrando do governo federal apuração das denúncias que envolvem pessoas diretamente ligadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em esquema de pagamento de propina a parlamentares para aprovação de matérias de interesse do Palácio do Planalto no Congresso.

O presidente da Força em São Paulo, Danilo Pereira da Silva, entende que a crise política enfrentada pelo governo Lula tem potencial para atingir a imagem das centrais de trabalhadores que apoiam o atual governo.

Ele garante que ninguém deseja inviabilizar a administração petista, porém é preciso apurar as acusações e punir os eventuais responsáveis.

A Força Sindical congrega 445 sindicatos que representam cerca de 5,3 milhões de trabalhadores no Estado de São Paulo. A central, criada em março de 1991, realiza um encontro nacional (5.º Congresso Nacional da Força Sindical) entre 2 e 4 de agosto, na Praia Grande.

Na semana passada, Silva esteve em Bauru para reuniões de mobilização da base da Força visando levantar representantes e propostas dos sindicatos paulistas para o encontro nacional. A seguir o sindicalista fala do momento político atual:

Jornal da Cidade - A Força Sindical não tem vinculação com o Partido dos Trabalhadores (PT), mas de que forma pode tirar vantagens dessa crise política?

Danilo Pereira da Silva - Pelo contrário, lamentamos a crise política porque frusta toda a sociedade e todos os trabalhadores. Porque o presidente eleito tem origem operária. Toda essa crise, esse desgoverno, essa corrupção, essa lama que está aí, acaba trazendo um ônus para o sindicato e para os sindicalistas, que não tiveram competência para administrar esse País. Portanto, queremos cobrar do governo rigor na apuração de todas as denúncias na punição dos envolvidos. Isso tem que ser feito de forma exemplar, sem que o País pare. Não somos a favor da ingovernabilidade. Vamos cobrar isso do governo. É lógico que amanhã se o próprio presidente estiver envolvido temos a Constituição para ser cumprida.

JC - O senhor acredita que o Lula possa estar envolvido?

Silva - Nesse momento é difícil dizer até que ponto está envolvido. Mas é impossível que um presidente, que é da origem do Partido dos Trabalhadores e que tem suas lideranças envolvidas nesse episódio, não tenha tido conhecimento de alguns fatos. As CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) devem apurar os fatos e até que ponto Lula se envolveu, foi omisso e negligenciou as informações que tinha. Não vamos tirar proveito dessa crise não. Pelo contrário, queremos o País em pleno desenvolvimento e não parado como está.

JC - Como vocês estão avaliando o fato de Luiz Marinho, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), assumir o Ministério do Trabalho?

Silva - Agora que ele assume numa crise política vamos cobrar como sindicalista algumas coisas que estamos frustrados com o governo e dar apoio. Temos um déficit de empregos e a reforma trabalhista não andou. Temos que avançar na discussão do salário mínimo e redução da jornada de trabalho.

JC - Luiz Marinho é a pessoa ideal para este cargo?

Silva - Temos muitos dirigentes sindicais para um cargo desse. Ele vem de uma central que é muito importante. Tem toda capacidade pessoal, mas assume numa crise complicada. Temos que apoiar.

JC - Qual será a relação de vocês com Luiz Marinho agora que ele é ministro?

Silva - Vamos criticá-lo naquilo que estiver errado. Vamos mobilizar a sociedade porque não podemos tirar a esperança confiada nesse governo. Não é nesse momento que vamos esquecer só porque tem um operário na presidência.

JC - A reforma sindical deslancha agora?

Silva - Não vejo de que forma ela ainda entra no Congresso este ano. Temos a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 369 que já está no Congresso. Em função da crise e a forma como foi conduzida a estrutura sindical, não há um consenso geral do movimento sindical. Da forma que está precisa ser discutida. Acho que é possível se fazer uma reforma mínima. Vamos levar ao Marinho uma medida que possa legitimar como entidades de classe as centrais sindicais, que resolve a questão do custeio das entidades sindicais, que hoje está uma bagunça. Por outro lado, há interferência do Ministério Público. E discutir a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais sem redução de salários.

JC - Como a Força analisa o cenário eleitoral de 2006, já que a pesquisa CNT demonstra que, por enquanto, as denúncias de corrupção não atingiram a imagem do Lula?

Silva - A avaliação da sociedade é muito lenta. Mas isso vai ter reflexo em uma candidatura para a reeleição do Lula.

JC - Vocês avaliam que ele deveria desistir da reeleição?

Silva - Ainda resta um ano e meio e cabe ao próprio partido (PT) dar a resposta. Se não reverter e não apurar podemos até apoiar outro candidato.

JC - Como você percebe a estratégia de blindagem do nome de Antônio Palocci, ministro da Fazenda, que seria um nome forte para a disputa?

Silva - A política de Palocci não tem revertido para os trabalhadores e na inclusão social. Não dá para analisar isoladamente a pasta do Palocci.

JC - Que críticas vocês têm à política econômica praticada pelo governo Lula?

Silva - Os privilégios aos banqueiros. A política de juros altos reflete que ninguém quer mais aplicar em desenvolvimento. Tem que ter uma política de desenvolvimento pleno que vai captar mais para o País e investimento em educação e saúde. Ao contrário, está se discutindo o déficit nominal zero. Não pode frear o desenvolvimento do País como estão fazendo.

JC - De qual promessa do Lula não cumprida vocês não abrem mão para os trabalhadores?

Silva - Emprego. Os 10 milhões de empregos não foram criados.

JC - Como é possível, no cenário atual, a criação de empregos?

Silva - Reduzir os juros. Depois discutir a carga tributária que temos hoje. Ter uma política industrial que privilegie a indústria nacional. Vincular o financiamento de investimentos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) à geração de empregos. Política agrícola correta com reforma agrária. São pontos fundamentais para que o País acabe com o desemprego.

JC - O 5.º Congresso da Força vai avançar em que pontos?

Silva - Vamos trabalhar na questão da política econômica e redução da jornada. E a política de desenvolvimento potencializada para o emprego.

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