Sem restrições para comer. Quando o assunto é a alimentação dos filhos, esse poderia ser o lema da operadora de telemarketing Andréia Gonçalves de Souza.
Desde muito cedo, Diego, 14 anos, Daiani, 10 anos, e Drieli, 3 anos, entenderam o recado e têm feito uso da liberdade oferecida pela mãe. Chocolates, biscoitos, lanches, salgados, iogurtes e refrigerantes fazem parte da alimentação diária das crianças que, em geral, ‘beliscam’ a toda hora.
“Tenho dó. Se eles querem comer, eu deixo, a hora que quiserem. Não imponho limites. Aquele forno vive cheio de balas, bolachas e pão para as crianças”, confessa Andréia, que não esconde certa admiração pelo apetite voraz dos pequenos.
Assim como Andréia, não são poucas as pessoas que encontram dificuldades para impor limites aos hábitos alimentares dos filhos. Especialistas alertam entretanto para os riscos de obesidade, doença cada vez mais freqüente entre a população infantil. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 20 milhões de crianças abaixo de cinco anos obesas - o que representa 6,6% do total mundial.
Na família de Andréia, a alimentação desregrada, rica em calorias, já trouxe conseqüências para Diego, que hoje está conhecendo os sacrifícios de quem se submete a uma dieta. Aos 10 anos, Diego chegou a pesar 70 quilos. O sobrepeso levou o menino recentemente a reduzir a quantidade de alimentos calóricos e incorporar verduras e frutas no cardápio.
Para ajudar as crianças a adotarem hábitos mais saudáveis, Catarina Wolfe, idealizadora do Espaço Leve - Núcleo de Prevenção e Tratamento da Obesidade Infanto-Juvenil, de São Paulo - afirma que os pais devem estabelecer limites e evitar erros comuns na educação alimentar, como dizer sempre sim às crianças; permitir lanches fora da hora; e dar mau exemplo (`leia dez erros mais comuns abaixo). Segundo a equipe do Espaço Leve, a falta de disciplina alimentar dos pais acaba sendo “copiada” pelos filhos.
“Não adianta os adultos comerem hamburguer e oferecere salada de alface com tomate e chicória para a criança. É preciso mudar os hábitos alimentares dos pais para inserir novos hábitos nas crianças. Hoje vemos crianças de 5 anos obesas, então é a alimentação que está errada”, complementa a nutricionista de Bauru Sylvia Regina Vieira Tosi, destacando que a reeducação alimentar deve atingir toda a família.
A operadora de telemarketing Andréia admite que, desde pequena, tem o hábito de ingerir frituras e comidas calóricas. A receita tem sido levada adiante pelos filhos. Nos dias de semana, o prato mais recorrente na casa é bife à milanesa com batata frita. Nos finais de semana, lasanha, feijoada, churrasco e tortas estão na lista de preferências da família. Quando o programa é fora de casa, o passeio acaba na lanchonete ou pizzaria. E entre uma refeição e outra, lá estão os biscoitos recheados e demais guloseimas. “Eu como o dia inteiro”, admite a pequena Daiane, lembrando que a mãe, todos os dias antes de trabalhar, deixa dinheiro para que ela e os irmãos comprem salgadinhos e chocolates.
Alimentação variada
Sylvia lembra que os pais não devem proibir as crianças de comer, mas sim oferecer alimentação variada e balanceada, estando atento à quantidade de itens calóricos ingeridos pelos pequenos. Em um dos dias da semana, segundo ela, os pais podem inclusive ser mais liberais e abrir as portas para guloseimas.
“Com criança, de um modo geral, não tem proibição, porque não há dieta. O que existe é a reeducação alimentar. Ela vai poder comer de tudo, mas é necessário controlar a quantidade”, diz a idealizadora do Espaço Leve.
A mudança na educação alimentar deve ter reflexo na lista de compras do supermercado, com a redução da quantidade de produtos industrializados, calóricos e gordurosos e aumento de frutas, legumes e hortaliças.
“Se existir uma banana e quatro pacotes de bolacha recheada, a criança vai optar pela bolacha. É nesse aspecto que é preciso existir vigilância”, diz Sylvia.
Para a criança adotar alimentação mais saudável, a criatividade dos pais também deve entrar em cena. Incluir legumes no cardápio na forma de suflê, purês e sopas são opções para tornar os alimentos mais saborosos. Limitar os refrigerantes aos finais de semana, e investir em sucos nos demais dias, também é uma forma de garantir a ingestão de frutas diariamente.
A idealizadora do Espaço Leve lembra que estimular a criança a brincar e praticar atividades físicas, como andar de bicicleta, é outro hábito recomendado por especialistas. Nos finais de semana, o programa pode tornar-se mais prazeroso quando realizado em família, com a participação dos pais.
“Evite passar o domingo inteiro em casa de pijama com seus filhos. Vá ao parque para passear, andar de bicicleta, faça atividades físicas com seu filho, de forma lúdica”, orienta Catarina.
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‘Ah, coitadinho’
Na avaliação da psicóloga Catarina Wolfe, idealizadora do Espaço Leve - Núcleo de Prevenção e Tratamento da Obesidade Infanto-Juvenil, de São Paulo, devido à falta de tempo para estar ao lado dos filhos, alguns pais têm sido tolerantes com os excessos alimentares.
“Hoje em dia os pais são extremamente ocupados e, por conta disso, muitas vezes, a bonificação para as crianças é trazer um chocolate, doce, levá-la à sorveteria. Isso a gente considera errado. Porque você demonstra para a criança que a falta de afeto é substituída pela comida”, ressalta.
Para compensar sua ausência durante o dia, a vendedora Elaine Aparecida Botelho sente-se incapaz de dizer não às vontades do único filho, Gabriel, de 3 anos.
“Ah, coitadinho, eu fico tão pouco tempo com ele em casa. Durante o dia, ele tem até uma vida mais regrada, apesar de também comer tranqueiras. Mas de noite eu deixo ele comer tudo que quiser, chocolate, bala, iogurte”, enumera a vendedora, lembrando que o filho já está acima do peso.
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Dez erros
1. Dizer sempre sim: A criança sem limites vai abusar das calorias e das guloseimas. Devemos ter no máximo um dia por semana em que podemos ser mais liberais;
2. Lanches fora de hora: O ideal são seis refeições diárias. Evite que a criança belisque a qualquer momento;
3. Oferecer comida como recompensa: A combinação “coma toda a sopa para ganhar a sobremesa” passa a idéia de que tomar sopa não é bom e que a sobremesa é que é o máximo;
4. Ameaçar castigos para quem não cumpre o combinado: “Se não comer a salada, não vai ganhar presente”. Isso somente vai aumentar a repulsa das crianças pela salada;
5. Brincadeiras na mesa: Hora de comer é hora de seriedade; então é bom evitar até mesmo o tradicional aviãozinho. Muito mimo é sinônimo de muita manha;
6. Ceder ao primeiro ‘não gosto disso’: a criança tem tendência a dizer que não gosta de uma comida que ainda não provou. Faça com que ela experimente os alimentos;
7. Substituir refeições: “Não quer arroz e feijão? Então tome mamadeira”. Esse erro é muito comum. Se a criança conseguir uma vez, vai repetir essa estratégia sempre;
8. Tornar a ida a uma lanchonete um grande programa: A comida de casa fica meio sem graça, quando se estabelece essa relação;
9. Servir sempre a mesma comida: Nada de deixar os pequenos tomando só iogurte, por exemplo, a tarde toda. Por mais saudável que seja o alimento, se for a única opção, a criança vai enjoar e seu organismo sentirá falta de outros nutrientes e fibras;
10. Dar o mau exemplo: Não adianta os pais ordenarem a ingestão de sucos e só beberem refrigerantes.
Fonte: Espaço Leve – Núcleo de Prevenção e Tratamento da Obesidade Infanto-Juvenil, de São Paulo.