Tribuna do Leitor

A Leishmaniose e a letargia do Poder Público


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Conta-se que, certa feita, o marido, entrando em sua casa, abruptamente, deparou-se com sua esposa e o amante sobre o sofá que adornava a sala, em plena conjunção carnal. Diante da flagrância adulterina, encolerizado, após expulsar o rival, tratou logo de vender o sofá que servira de guarida aos impetuosos amantes, no baldado intuito de refrear os impulsos amorosos da esposa. Grosso modo, poder-se-ia concluir que tal conduta esdrúxula e pilhérica assemelha-se à postura daqueles agentes públicos que têm, mercê as atribuições pertinentes, o poder-dever de combater a leishmaniose.

Ao invés de deflagrarem atividades práticas que resultem na erradicação do mosquito palha, o principal vetor de transmissão da terrível moléstia, cuidam apenas de exterminarem os cães, que também são vítimas do famigerado inseto. Forçoso reconhecer que agridem os efeitos, descuidando-se da causa, na debalde tarefa de enxugar poça d’água sob uma torneira pingando. Insta salientar que a fundamentação da sentença que deferiu a liminar dando providências no tocante aos cães com suspeita de leishmaniose, o preclaro magistrado, o qual tive o privilégio de conhecer, ressaltou que os direitos coletivos sobrepõem-se aos individuais.

No entanto, essa primazia invocada não é observada pelos eminentes membros do Ministério Público, seja em qualquer esfera, que diante do quadro crescente de infectação, não aplicam os meios decorrentes de suas atribuições, estabelecidas através dos cânones constitucionais, no sentido de compelir os órgãos públicos a tomarem providências objetivando o combate do mosquito palha, lembrando-se, por oportuno, que a saúde da população é primordial na esteira dos direitos coletivos.

No último dia 25, o J.C. veiculou reportagem enfatizando os trabalhos investigativos, realizados pelo DSC, apontando os principais focos de leishmaniose e que, segundo a reportagem, foi alvo de elogios por parte da técnica da Sucen, Maria Helena da Silva, que levaria os resultados da pesquisa para reunião do órgão, em São Paulo. Daí, indubitavelmente, concluir-se que essas teses irão, fatalmente, juntar-se ao calhamaço de papéis que infestam os órgãos públicos, pecando pela inexistência de objetividade prática, que resultem em efeitos desejados. Merecem, pois, os aplausos da população, que atemorizada pelos acontecimentos, implora e espera que o emaranhado de lógicas saia do papel e se concretize efetivamente.

Não se faz difícil acreditar que o período de divagações já se esgotou, haja vista que a leishmaniose existe no Brasil há mais de dez anos, atingindo, atualmente, índices alarmantes. Urge medidas que tenham o condão de erradicar o mosquito palha mediante atividades de nebulização ou de armadilhas eficazes à captura. Prezada senhora Maria Helena da Silva, DD. técnica da Sucen em Bauru, com todo o respeito que a senhora e todas pessoas interligadas à área de saúde, de todo o país, merecem, contudo, torna-se imprescindível lembrá-los de pessoas que choram a morte de entes queridos e de sofrimentos advindos do extermínio de seus animais de estimação, havidos face ao abismo da inércia que assola o território brasileiro. Houvesse, pois, responsabilidade penal, quer direta ou indiretamente, por ação ou omissão, não sofreríamos o descalabro infeccioso que se desenrola nos dias de hoje.

Por derradeiro, valho-me do espaço, não sem os olhos marejados, para deixar consignado o preito de admiração e gratidão às senhoras Maria Dolores Barbosa Gomes e Katuió O. Holloway, criaturas que, embora não sentindo na própria carne, repudiaram, com veemência, os infaustuosos e dantescos acontecimentos envolvendo funcionários do C.C.Z. e os humildes moradores da rua Célio Daibem, posto que, em se confirmando a veracidade dos fatos, teremos a revelação do despreparo dos “torquemadas” do século 21.

Profundamente indignado com o ocorrido, há que se ressaltar que neste país, onde a impunidade impera, o clamor dessas iluminadas pessoas, protestando por justiça, reacende esperanças em acreditar que nem tudo está perdido. Ademais, não se deve olvidar que o povo que se cala diante das iniqüidades evidencia, inequivocadamente, a natureza de subserviente e que o silêncio é a irrefutável voz dos pusilânimes.

Antonino Saes - RG 7.604.267 - Pirajuí-SP

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