Tribuna do Leitor

A Polícia Federal e a turma chic


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O oposto do luxo não é a pobreza, mas a corrupção e a vulgaridade. Não podemos generalizar, mesmo porque tal atitude é injusta e irracional. No entanto, a elite brasileira é mesquinha, insensível e hipócrita. Não estão nem aí com o sofrimento da maioria pobre da população e são unidos entre si na defesa de seus interesses.

A Polícia Federal, que vem lavando a alma dos brasileiros honestos e decentes, prendeu numa operação de combate à sonegação fiscal a empresária Eliana Tranchesi, dona da Daslu Modas, o maior centro de consumo de luxo do país. É acusada pelo Ministério Público Federal de sonegação fiscal, falsificação de documentos e formação de quadrilha.

Enquanto só pobre e preto ia para a cadeia no Brasil, estava tudo bem. Mas foi só o Ministério Público e a Polícia Federal começar a pôr atrás das grades os ladrões e ladras do colarinho branco que já começou a chiadeira. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, afirmou na imprensa que a Polícia Federal está fazendo show de pirotecnia nas suas ações. O presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingues, disse que ficou indignado com a prisão. Inclusive vai haver até uma reunião das entidades empresariais em conjunto com a OAB, para discutirem as ações da Polícia Federal, que segundo eles ferem o estado democrático de direito.

O presidente da OAB-SP, Luis Flávio D’Urso, vê riscos à democracia e acha que megaoperação ou pedido de prisão só deve ocorrer em casos excepcionais. Na avaliação de Tales Castelo Branco, presidente do Instituto de Advogados de São Paulo, houve falhas no processo de apuração que poderiam ter sido evitados. O senador Antônio Carlos Magalhães chorou e lamentou e outro senador, Jorge Bornhausen, até previu uma crise econômica no país. A única exceção foi o Ditinho Prega fogo, o maior pescador da Vila Quaggio, que comemorou a prisão marcando fiado três rabos de galo no bar do Ciro.

Gozado, eu cansei de ver nestes programas policiais de tv outras polícias, mesmo sem provas ou indícios, invadirem alguns barracos na cidade e até humilhando moradores da favela sem mandado judicial. Aliás, é comum nos bairros periféricos flagrante de abuso de autoridade e constrangimento ilegal. E pior, a tortura continua sendo o principal modus-operandi de várias delegacias no Brasil.

Entretanto, nunca vi nenhuma entidade jurídica ou empresarial, autoridades ou políticos se insurgirem contra abusos cometidos contra as camadas mais humildes da sociedade. Isto não significa que estou defendendo a ilegalidade contra a turma do andar de cima, apenas percebe-se que as operações da Polícia Federal, além de legítimas, estão desmantelando quadrilhas e corruptos que, por terem dinheiro, sempre ostentaram arrogância nas páginas sociais de revistas e jornais.

Aos poucos o Brasil está mudando, mas ainda não mudou de verdade. Vejam só que patifaria, a empresária chic é acusada de sonegação fiscal, falsificação de documentos, formação de quadrilha e contrabando e fica só 12 horas na prisão. A mesma sorte não teve a empregada pobre e doméstica que teve que amargar 1 ano e sete dias de xilindró por ter cometido um crime monstruoso e hediondo, de tentar furtar um xampuzinho no mercado.

PS - As denúncias atingiram o PT, mas não o Lula. E voto nele em 2006.

Pedro Valentim

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