Depois de muito caminhar, um forasteiro avistou três pequenas casas. Como estava com muita fome e sem dinheiro, resolveu pedir algo para comer. Chegando à primeira casa, bateu à porta. Imediatamente, apareceu um coelho branco perguntando o que ele desejava. Dizendo ter muita fome, pediu-lhe algo para comer. O coelho lhe respondeu: “Eu não tenho nada neste momento. Procure em outro lugar!”
Então o viajante resolveu tentar na casa ao lado. Batendo à porta, apareceu um coelho marrom. Ao pedir algo para comer, o coelho lhe disse: “Sinto muito, mas agora não tenho nada para oferecer”, e fechou a porta rapidamente. Já com poucas esperanças, o forasteiro resolveu tentar na terceira casa. Ao bater na porta, apareceu um coelho preto que imediatamente convidou-lhe para entrar em sua casa. Era uma casa de um cômodo só. Os dois se sentaram à beira do fogo, sobre o qual havia um caldeirão com água fervendo. Então o viajante lhe contou que há dois dias não comia e não tinha nenhum dinheiro.
Comovido, o coelho lhe respondeu: “Infelizmente não tenho muito a oferecer, mas o que tenho lhe dou com prazer”. Então o coelho rapidamente pulou dentro do caldeirão, mergulhando na água fervente.
Os seres humanos vivem e se desenvolvem em um constante movimento dialético. Por dialético entendemos o movimento impulsionado pelas contradições, pelo choque de opostos, pelo relacionamento entre tese e antítese, continuidade e descontinuidade, união e separação, tristezas e alegrias, verdades e ilusões, etc. Ao olhar para si mesmo e para sua vida, todo ser humano pode constatar aquilo que é no momento e como está a sua vida.
Diante deste olhar, o ser humano encontra um determinado conteúdo, determinados aspectos que compõem, no agora, seu eu e sua situação. Desta forma, nós categorizamos o nosso “estar sendo”, ou seja, o nosso existir. Mas esta visão e compreensão podem ser alteradas com novas situações que nos fazem questionar e reformular os conceitos sobre nosso ser e existir. Este movimento de constante confrontação e aprendizado nos faz acertar em nossas decisões, ações e encontrar o sentido de nossa vida. O ser humano pode, porém, vivenciar as diferentes situações que lhe aparecem no cotidiano através de três posturas.
A primeira é a postura de fechamento. Vivenciamos situações sem a abertura necessária para compreendê-las. Não paramos para pensar sobre elas e estas simplesmente passam à nossa frente como imagens de uma televisão ligada quando estamos fazendo uma outra atividade. “Olhando, eles não vêem, e ouvindo, eles não escutam, nem compreendem” (Mt. 13, 13). Com esta postura de desinteresse diante das situações, ao invés de levarmos a vida, corremos o risco de assistir a vida simplesmente nos levar. Nos alienando do que acontece ao nosso redor, não conduzimos o movimento dialético da vida e sofremos com conseqüências indesejáveis. Situações ou outras pessoas acabam por nos conduzir, pois não nos esforçamos em exercitar algo fundamental: a reflexão.
A segunda postura que podemos ter diante de nosso viver é a de não envolvimento. Neste segundo posicionamento podemos ter consciência do que acontece ao nosso redor, mas esta consciência não nos leva a uma ação concreta. Diante do que acontece em nosso cotidiano, adquirimos simplesmente um saber puramente intelectual, um conhecimento que nos mantém bem informados. Apesar de termos consciência e dados informativos sobre o que acontece, assistimos a tudo com distanciamento. Por medo de um possível sofrimento ou das complicações que podem nos causar, preferimos não nos envolver com pessoas ou em determinadas situações.
Através desta postura, podemos nos tornar pessoas bem informadas, até mesmo pessoas eruditas, mas nunca sujeitos da história. Poderemos desenvolver teses belíssimas, teorias perfeitas sobre o que acontece em nossa vida e na sociedade, mas não faremos grande diferença, pois nos mantemos como meros espectadores. A terceira e última postura é a postura da interação. Nesta, estamos abertos a conhecer, nos envolver e a aprender. Poucas situações passam despercebidas. Procuramos analisar racionalmente o que acontece, buscar soluções e, melhor, sem medo do erro. É o agir concretamente.
Quem possui a postura da interação compreende que somos mais ricos espiritualmente quanto mais reconhecemos os aspectos múltiplos e contraditórios da vida. E a virilidade aqui consiste em interagir com as contradições – apesar da luta e da dor – a fim de nada perder delas. Na postura de interação com as situações do cotidiano vive-se uma verdadeira relação “antropofágica”. Estamos dispostos a nos alimentar da vida digerindo os momentos e situações e assimilando deles o que há de melhor. Sem medo da perda ou do sofrimento, mergulhamos no caldeirão da vida e procuramos dar a ela o gosto de nossa presença. “À pessoa que tem, será dado ainda mais e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem” (Mt. 13, 12).