Política

Matéria da ‘Época’ gera pedido de intervenção no PT de Bauru

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 4 min

Um grupo de filiados do PT de Bauru irá encaminhar ao diretório estadual da legenda pedido de intervenção no comando municipal do partido. A solicitação se baseia em declarações da presidente do diretório municipal, Estela Almagro, que informou à Revista “Época”, da Editora Globo, ter utilizado o jatinho particular do empresário Ayrton Daré durante a campanha eleitoral do ano passado, fato que não constou da prestação de contas da petista.

A reportagem da “Época” aponta que a Bauruense, empresa de Daré, assumiu 90% dos contratos de mão-de-obra terceirizada assinados pela estatal Furnas ao longo de 2004. Os acordos somam mais de R$ 323 milhões e serão analisados pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

“Informalmente, nós já fizemos esse pedido de intervenção do diretório estadual, mas agora vamos oficializá-lo. A Estela tem que ser afastada da direção do partido para que a sua conduta seja apurada”, afirma o petista Francisco Wagner Monteiro, coordenador da subsede da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Bauru.

Monteiro integra uma lista de nove filiados do PT que foram expulsos do partido pela direção municipal no final do ano passado. Eles foram acusados de fazer campanha para o então candidato a prefeito Tuga Angerami (PDT) durante o primeiro turno das eleições, quando Estela ainda participava da disputa.

Na oportunidade, eles negaram as acusações e recorreram ao diretório estadual, que anulou as expulsões e determinou a abertura de comissão de ética para analisar a punição. “Também protocolamos um dossiê com a conduta adotada pela Estela durante o processo eleitoral. Já tínhamos indícios de que ela havia sido beneficada pelo Daré, porque ela foi flagrada subindo no jatinho do empresário. Como as provas não eram nossas, não podíamos acusar”, relata.

Comissão

Segundo Monteiro, o dossiê foi acompanhado de um pedido de abertura abertura de comissão de ética contra a presidente municipal do partido, solicitação que será reforçada agora. “Desta vez, porém, também iremos requerer a intervenção do diretório estadual”, destaca.

O petista afirma que o uso do jatinho de Daré não é o único fato contestado pelo grupo. “Nós questionamos o protecionismo à candidatura de alguns vereadores. A Estela financiou outdoors em que aparecia com esses companheiros. O nosso candidato, Jesus Garcia, não teve nenhum apoio do partido. Para conseguirmos espaço no horário político, foi preciso fazer muita pressão”, comenta.

Monteiro defende a intervenção imediata no diretório municipal, que tem eleições agendadas para o dia 18 de setembro. “Na visão do militante, como é que ele vai votar sabendo que uma das chapas, justamente a que comanda o partido, está envolvida com aparente desvio de conduta?”, questiona.

Estela argumenta que apenas pegou carona no jatinho de Daré e, por isso, não incluiu a viagem na prestação de contas. Ela também nega que tenha prejudicado o grupo de Monteiro. A petista critica o pedido de intervenção. “Nesse momento, há coisas mais importantes para o PT do que pensar em divergências internas do partido em Bauru”, declara.

Ela manda um recado para os oponentes. “Eu os desafio a se mobilizarem para as eleições de setembro, que serão uma oportunidade para que eles me derrotem. Historicamente, eles não têm obtido êxito”, provoca.

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O empresário e a estatal

O JC tentou falar ontem com o empresário Ayrton Daré, na Bauruense, mas sua secretária informou que ele não estava, e que deixaria o recado para que entrasse em contato com o jornal. Na entrevista à Revista “Época”, Daré afirmou que venceu as licitações promovidas por Furnas porque o lucro da Bauruense é baixo. Além dos 11 contratos firmados em 2004, a empresa assinou outros acordos da ordem de R$ 60 milhões com a estatal no primeiro ano do governo Lula.

Alguns dos contratos foram firmados sem licitação. A estatal informou à revista que o procedimento foi adotado porque uma liminar de 2004 impediu a realização de novas concorrências públicas para contratação de pessoal terceirizado. Diante disso, Furnas alegou que os serviços seriam prejudicados e escolheu a Bauruense porque os acordos em vigor já pertenciam à empresa.

A reportagem questiona, ainda, o envolvimento de Daré com o escândalo do Banestado. O presidente do banco, Manoel Garcia Cid, foi condenado à prisão e multa superior a R$ 1 milhão por ter cometido diversas irregularidades, entre elas o pagamento de uma indenização de R$ 1,9 milhão ao proprietário da Bauruense.

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