“O homem que não tem língua e fala”. Com estas palavras, o evangelista Valdir de Souza foi apresentado aos fiéis da igreja Deus é Amor, ontem à tarde. Pela quinta vez na cidade, Souza viaja pelo País para narrar sua experiência de vida e atrai a curiosidade das pessoas por falar normalmente sem ter língua.
Usuário de drogas por 12 anos, o evangelista conta que sua língua foi amputada em conseqüência de uma overdose. Após uma crise, aos 23 anos, sua língua enrolou e, devido a complicações, foi amputada. “Depois da cirurgia, eu não falava nada e os médicos diziam que não voltaria a falar”, explica. Segundo ele, um ano após se converter à religião, voltou a se comunicar pela voz. “Um milagre”, resume.
Aos 34 anos de idade, Souza está acostumado aos olhares curiosos. A autônoma Maria Aparecida da Silva, seguidora da religião, interrompeu a venda de algodão doce para conhecer o evangelista. “Freqüento mais outra igreja, mas hoje vim aqui. Vou pedir para ver como é”, conta.
Valdir de Souza fala com relativa facilidade e afirma nunca ter feito tratamento para recuperar a oralidade e, dez anos depois do acidente, a língua não o prejudica em suas palestras. “Nada melhor do que ser do jeito que nasceu, mas não faz falta”.
Justificado como milagre por Souza, a explicação para casos como o dele é um pouco diferente para a ciência. Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que pessoas que perdem a língua parcial ou totalmente têm condições de falar porque desenvolvem mecanismos para que a comunicação aconteça. “Cada caso é um caso e precisa ser avaliado isoladamente. Em linhas gerais, é possível falar de maneira compreensível na ausência total ou parcial da língua, utilizando movimentos compensatórios com os demais órgãos da fala, como lábios e bochechas”, explica a fonaudióloga Cláudia Granja Bentim.