O solo predominante na Fazenda Águas do Pelintra é bastante pobre para fins agrícolas. A afirmação é do professor de ecologia vegetal Osmar Cavassan, do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
“Se existiu uma avaliação de um assentamento com finalidade agrícola para aquele solo, foi um equívoco. Com certeza, será uma agricultura fadada ao fracasso”, sentencia o professor, que também é vice-diretor da Faculdade de Ciências da Unesp. Apesar de ser imprópria para a agricultura, a terra está perfeitamente adaptada a manter a vegetação de serrado que existe no local atualmente.
“(A área) é uma verdadeira relíquia do ponto de vista ecológico”, declara Cavassan. Segundo ele, diversos trabalhos de alunos mostraram que naquele ambiente existem ecossistemas que praticamente não são mais encontrados no Estado.
“Temos dois tipos de mata atlântica que guardam espécies raríssimas, em vias de extinção, que não são mais encontradas em outras regiões”, disse o professor.
“Além disso, temos um fragmento de serrado muito bem protegido.” Segundo ele, até há pouco tempo o serrado cobria quase 20% do Estado. Hoje, está restrito a menos de 1% .
Há muito tempo aquela área tem servido como um importante laboratório natural para a Faculdade de Ciências da Unesp. Dali saíram três teses de mestrado, uma de doutorado e várias monografias de final de curso.
“Uma vez sem a proteção que tem hoje, não sabemos até onde seria possível manter a área como laboratório. É uma incógnita”, sustenta Cavassan.
Algo inédito
De acordo com a coordenadora do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), Lélia Pinto, Agudos é uma das poucas, senão a única, cidade brasileira a decretar um pedaço de mata como Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie). A lei que possibilita essa mudança é de 2000 e praticamente não há notícias de cidades que teriam se utilizado dela.
A exemplo do professor Cavassan, Lélia também disse que a área possui espécies de fauna e flora em extinção. “Descobrimos recentemente que existe um corredor ecológico entre os fragmentos florestais da região de Bauru e Agudos”, lembrou a coordenadora.
Em dezembro do ano passado, o Ibama realizou palestras a produtores rurais em Cabrália Paulista para ensinar como proteger o rebanho de ataques de onça parda, sem matá-las. A presença de onças na região, segundo Lélia, mostrou que existe um fluxo de animais selvagens entre os municípios da região.
Uma onça, por exemplo, precisa de 400 hectares de mata contínua para sobreviver.