Articulistas

Perdas na agricultura


| Tempo de leitura: 2 min

Não há dúvida que a queda dos preços dos produtos agrícolas está contribuindo fortemente para a redução do ritmo da inflação no Brasil. Esse efeito na inflação acontece não apenas porque os preços dos nossos produtos básicos da alimentação, em especial a soja, milho e arroz, caíram lá fora, mas também em decorrência do aperto monetário interno. Quando o Copom decidiu manter a taxa Selic em 19,75% na semana passada, muitas pessoas acreditaram que era um prenúncio de queda da taxa real, mas, na verdade, como a perspectiva da inflação caiu, o juro real daí resultante subiu para 14% ao ano. O elevado nível da taxa de juros é que mantém a valorização do real, hoje a moeda mais valorizada do mundo. Os efeitos dessa valorização mais a queda de preços atingem brutalmente a economia agrícola que já vem sofrendo com a seca nos Estados do Sul e com a demora nas decisões do governo em liberar recursos de emergência para as regiões atingidas.

O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, ele mesmo um produtor, reclamou recursos desde o final do ano passado, mas só agora eles começaram a ser liberados, depois que o agricultor perdeu suas máquinas, fábricas de implementos paralisaram a produção e os municípios flagelados decretaram o estado de calamidade. Os agricultores que ainda não foram abatidos vão ter muita dificuldade para sair dessa situação, porque a venda das colheitas aos preços atuais não será suficiente para cobrir os custos de produção. É fácil ver que as contas não fecham porque os insumos que entraram nos custos das lavouras (fertilizantes, adubos, corretivos, etc) foram comprados quando o dólar era cotado a R$ 2,80 ou R$ 2,85 e agora terão que vender a produção com o dólar a R$ 2,40 ou R$ 2,50. A queda no valor da produção vai obrigar o produtor a novamente enfrentar aquele ciclo de inadimplência, renegociação de dívidas, a tragédia que se repete diante da incapacidade dos governos de se anteciparem ao problema apesar de facilmente previsível.

Com os preços dos alimentos em queda, o que é bom para os consumidores este ano é ruim para o produtor este ano e nos anos seguintes. Provavelmente, já será ruim também para o consumidor no ano que vem, pois haverá redução da área plantada e obviamente menores colheitas. Significa problemas de abastecimento e preços pressionando a inflação.

O ministro Rodrigues calcula que as perdas da safra 2004/2005 somam US$ 10 bilhões que deixarão de irrigar a economia no campo, exatamente o setor que tem conseguido manter o crescimento do produto nos anos de fraco desempenho da indústria. O que deixou de ser liberado para socorrer o setor na época adequada é menos do que 10% disso.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP e professor emérito da USP

Comentários

Comentários