JC Criança

A delícia de descobrir a paixão pelas letrinhas

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

“Com a agitação do dia na cidade, ninguém mais pára para conversar, trocar idéias, o que é muito gostoso e bom para a nossa alma. Parece que hoje as pessoas não têm mais tempo.” Com simplicidade, a Giovana Campos de Oliveira, 12 anos, comenta o incômodo que sente com a falta de diálogo entre as pessoas e também entre as crianças. Ela faz a 6.ª série na Emef Santa Maria, em Bauru, e é apaixonada por poesia. Ela faz trovas e poemas desde os 9 anos e hoje sente-se muito grata por ter conhecido o mundo mágico da poesia.

“Eu comecei a declamar quando fazia coral, na 3.ª série, mas foi na 4.ª série, com a minha professora Jocelina, conheci a trova. Até hoje eu me encontro com ela, que me dá dicas de livros e me incentiva.” Giovana difere da maioria das meninas da sua idade, pois seu interesse pelas letras e sua paixão pela poesia surpreende até os mais adultos. Mas ela acredita que a arte é muito importante para as pessoas. “Eu passo a maior parte do meu tempo lendo, pensando, refletindo, decorando poemas, mas sou uma criança normal, gosto de correr, de ver TV, de brincar de bonecas, de fazer esportes. Gosto de jogar futebol e handebol.” E ela resume: “Poesia é para a alma, esporte é para a saúde”. O pai é técnico esportivo e estimula a filha à pratica esportiva, inclusive do futebol. “Eu gosto muito, já participei de campeonatos.”

Sempre no terceiro sábado do mês, a pequena Giovana se encontra com o grupo de trovadores da União Brasileira de Trovadores (UBT) – Delegacia de Bauru – e participa das atividades entre os adultos, a maioria com mais de 50 anos. “Eu levo meus pais, minha irmã. A gente é tão acolhido, nem parece que eu sou criança e eles não. Parece que a gente tem a mesma idade.” Nesses encontros, eles declamam, escrevem, conversam, dão muitas risadas e oferecem um refresco para a alma, com muita trova.

“Hoje eu digo que encontrei grandes amigos, como o Antonio Valentim, o João Batista, o José Roberto e a Lucy Rangel, que já nos deixou, pois faleceu, e em sua homenagem o nosso grupo recebeu o seu nome.” “Eu sou a mascotinha do grupo e sinto-me muito à vontade com eles, a gente passa uma tarde muito gostosa no Centro Cultural.”

Apoio

A trovadora mirim conta com apoio de amigos e, é claro, de toda a família. “Minha irmã Gabriela, 9 anos, me ajuda bastante. Treino com ela, que é minha melhor amiga. Ela que me atura, brinca. Ela gosta bastante de ler e até faz algumas poesias. A Gabriela é um barato.”

Apesar de se divertir como criança, Giovana também sabe ser crítica e observa que muitas vezes as crianças não observam o que acontece ao seu redor, não praticam a leitura, não buscam nada muito saudável. Por isso, às vezes, ela sente-se mais à vontade em companhia de adultos.

“Criança, às vezes, só pensa bobagem, os adultos são mais sábios, mas todos devem sempre ter um lado criança, é muito bom. Os avós normalmente têm. Eu passo muito tempo com meus avós, a gente aprende juntos. Declamei nas bodas de ouro dos meus avós Nelson e Cecília – minha avó gosta de se sentir jovem e pede para a gente chamá-la de Dinha. Minha avó paterna, Clotilde, mora em Bauru, e passei umas três semanas das minhas férias lá com a minha irmã, é ótimo.”

Minha musa inspiradora é a Ercy. Eu agradeço muito o seu Tomás que me levou até a dona Ercy e à UBT. Já estou há um ano com eles. Eu faço umas trapalhadas, ela me ajuda a arrumar minhas trovas”, recorda com carinho. Os pais Maria Cristina e Luiz Antonio incentivam bastante a Giovana, mas foi ela quem apresentou a trova para a família. “Meu sonho é continuar escrevendo poesias e trovas e lançar um livro. Já tenho perto de 40 trovas e dez poemas.”

Trova: parece fácil, mas não é!

“A trova é mais complicada, porque a gente precisa contar as sílabas tônicas. São quatro versos com sete sílabas tônicas cada um; e o primeiro rima com o terceiro e o segundo rima com o quarto”, explica Giovana. Além disso, orienta a delegada da UBT em Bauru, Ercy Maria Marques Faria, a trova precisa ter uma idéia completa. Não é fácil, mas é possível aprender e deixar a criatividade, aliada à matemática, agir e sonhar. “A trova é curtinha, com uma idéia completa, dá um recado imediatamente, mas esconde aí a sua dificuldade, pois resumir uma idéia não é fácil”, comenta Ercy.

Quando Giovana conheceu a trova pela primeira vez ficou encantada e isso fez com que ela iniciasse nesse mundo especial e nunca mais parasse. Uma das primeiras trovas que conheceu é de Antonio Valentim Rufatto:

Sou trovador terrestre

E na vida um aprendiz

Das lições do grande mestre

Que é São Francisco de Assis.

“São Francisco era trovador, por isso ele é o santo das trovas”, comenta Giovana. Na seqüência, ela declama outra do amigo João Batista Xavier de Oliveira:

Trovador é o arquiteto

Que no seu pequeno espaço

Faz das estrelas seu teto

E do céu seu terraço.

“Gostei muito, resume tudo o que é a trova.” Outra que marcou a história de Giovana é da trovadora Lucy Rangel, “porque ela é muito romântica”:

Noite clara, lua cheia

Um trovador... um violão

O coração se incendeia

Ante à chama da paixão.

“Agora estas são minhas, que vão estar no Bosque da Comunidade, são sobre ecologia”:

Não adianta sonhar

Se você pode fazer

Esse ato de plantar

Também o de proteger.

Que bonito que sonhei

Ao ver riqueza de flora

Foi então que me espantei

Com nosso mundo de agora.

Esta estava na exposição de 2004:

O belo ipê amarelo

Com suas folhas douradas

Ofecer encontro belo

Para as pessoas amadas

Leitura e música

Ler em voz alta é uma sugestão de Giovana para estimular o interesse pela poesia. “Você escutando, se imagina dentro da poesia. A gente se encanta e começa a compreender melhor. Eu procuro tentar passar essa mensagem. A poesia nos faz refletir e pensar, que a vida é boa para sorrir e amar.”

Mas é para ler mesmo, enfatiza. “Ler de espírito, de corpo e alma. Não só passar os olhos. Os professores às vezes estimulam a ler em voz alta para compreender o texto.” Ela comenta que antes nem sabia da existência da trova e hoje os amigos da escola solicitam sua presença no recreio. “Os colegas pedem: ‘Giovana, você tem alguma poesia nova, uma trova, para declamar para a gente?’. Eu sempre declamo. Adoro. Antes eu era mais tímida, agora não. Declamei na USC, a convite do Vidágua, em um evento sobre o cerrado, e em outras oportunidades”, relembra. “Para declamar é importante se sentir dentro da poesia e esquecer tudo. Ai, que gostoso!”

Ela procura alguns temas, o que ela mais gosta é ecologia. “Gosto da natureza, mas há muitos temas para pensar.

Eu tento estimular os amigos da escola, às vezes ajuda. Eles também me passam muitas lições sobre a vida.”

Outra sugestão da trovadora mirim para ampliar o interesse pela arte literária é a música. “Ouvir MPB, prestar atenção nas letras. Algumas letras são verdadeiras poesias. Eu gosto de Legião Urbana, Ira, Tim Maia, Demônios da Garoa. Às vezes o Toquinho, Vinícius de Moraes e até o Chico Buarque passam a vista pela vida, gosto de ouvi-los. O Chico é mais difícil, mas eu gosto.”

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