Tribuna do Leitor

(Con)tradições da capoeira nos Jogos Regionais


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Bastante significativo o avanço na organização da participação da Capoeira nos Jogos Regionais. Chegamos ao ginásio do Sesc às 7h45 para a pesagem e, ao serem abertos os portões, já estava tudo organizado: bateria de instrumentos e ritmistas, árbitros, súmulas, balança, mesários... todos a postos. Ginásio limpo, piso adequado, demarcação das rodas nas dimensões adequadas (bem pequenas para exigir ao máximo das habilidades dos jogadores). Muito diferente da nossa primeira participação, há três anos atrás, em Pirassununga. Como amantes da Capoeira, sentimo-nos felizes com o tratamento dado por São Carlos à nossa modalidade e pelo empenho da Federação na condução da competição.

Mas Bauru foi prejudicada e o ouro se transformou em prata.

Nosso capoeira meio-pesado Danilo Zarlenga Crispim foi, sem sombra de dúvida, o merecedor do ouro em todos os quesitos: tradição, eficiência técnica, volume de jogo e condição física. Movimentos precisos de ataque e defesa, variação de jogo em cima e em baixo, excelente ginga e contra-ataques que deixaram seus oponentes em dificuldades.

Não houve nenhuma surpresa quando o Danilo foi anunciado como primeiro colocado, ao menos para o público que foi assistir à competição; menos ainda para seus adversários. Formado em Capoeira (equivale à faixa preta nas modalidades de lutas orientais) pelo Mestre Amaral, professor de Capoeira na Luso e da Academia Planet, um apaixonado pela Capoeira Regional (criação do Mestre Bimba nos anos 1930) e pela sua metodologia de ensino/treinamento, com um histórico de treinamentos especializados realizados com o Mestre Napa do “Jogo de Dentro” em Ribeirão Preto e visitas à Escola de Capoeira “Filhos de Bimba” em Salvador/BA.

Entretando, após a medalha entregue, a surpresa. O público abandona o ginásio. Esperamos o transporte que nos levaria de volta ao alojamento da delegação de Bauru para almoçar e organizar o retorno a Bauru, e o Mestre Governador, técnico da equipe de Santa Rita do Passa Quatro requer a recontagem dos pontos, e na recontagem é invertida a posição: o ouro se transforma em prata, a prata em ouro.

O problema permanece: a falta de padronização no julgamento dos árbitros.

Isso não se deve à falta de objetividade nos critérios de avaliação, mas a fatores muito subjetivos. A desportivização da Capoeira é muito recente, data de 1992, quando da fundação da Confederação Brasileira de Capoeira, desvinculando a modalidade do pugilismo. Um ato acertado, pois a Capoeira enseja aspectos culturais e ritualísticos muito específicos, não se confundindo com uma mera luta (sem deixar de sê-lo) nem se configurando em uma arte-marcial.

O caminho adotado também nos parece adequado, ao fazer a competição na condição de um jogo e não de uma luta, afinal, quem não se lembra da quantidade impressionante de lesões, contusões e fraturas nas competições dos jogos abertos em Santos em 1980, primeira tentativa de inclusão da Capoeira nos Jogos?

Mas o fato de nem todos os praticantes serem federados, e a proximidade das lideranças e dos grupos federados em reuniões, cursos, seminários, simpósios levados a cabo pelas ligas, pela federação estadual e pela própria confederação têm conduzido a arbitragem a julgar de maneira muito diversa as voltas onde há um ou dois federados e voltas onde não haviam nenhum.

Prova disto é perceber diferenças de até mais que 2 pontos atribuídas a um mesmo atleta em uma mesma volta. Aos amigos feitos pela estreita convivência nesses eventos e nas mesas dos restaurantes nos intervados desses, se agracia com uma nota mais farta.

Ato contínuo

A atleta meio-pesado feminino de Santa Rita do Passa (a mesma equipe que nos tirou o ouro no masculino) é desclassificada por estar usando um acessório (uma correntinha no tornozelo esquerdo), o que é proibido pelo regulamento, 10 segundos após iniciar o primeiro jogo com a bauruente Daniela, tendo ela somente este tempo para mostrar sua habilidade, obtendo notas 1 e 2 dos árbitros, totalizando 3 pontos em uma volta que poderia lhe dar 10 pontos. Apesar dos nossos protestos, essa volta (é assim que se chama cada jogo de Capoeira) foi computada, impedindo-lhe a possibilidade de uma nova apresentação (cada atleta tem direito a 4 voltas), e, apesar de ter seu desempenho avaliado efetivamente apenas em 3 voltas, a Daniela foi classificada em 6º lugar. Mais sete pontos lhe dariam o 2º.

Apoiamos a Federação de Capoeira do Estado de São Paulo nas diretrizes adotadas para a desportivização da Capoeira e reconhecemos os avanços que o seu trabalho vem alcançando. Entretanto, como amantes da arte-luta brasileira não podemos nos calar diante de atos tão bárbaros, que em muito prejudicaram a nossa cidade.

Protestos semelhantes a esse darão volta-no-mundo, pelas rod@sVirtuaisDeCapoeira, inclusive a da própria confederação: capoeira-cbc@grupos.com.br.

Professor Alberto de Carvalho Pereira Sobrinho - técnico de Capoeira Bauru nos Jogos Regionais - Praticante de Capoeira desde 1982 - professor de Educação Física

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