Bauru 109 anos

De volta aos bancos escolares

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 3 min

A universalização do ensino fundamental passa, necessariamente, pela educação de jovens e adultos. Públicos que, por questões financeiras ou sociais, não tiveram condições de concluir ou mesmo iniciar os oito anos considerados obrigatórios pela Constituição. Em 2000, dado mais recente sobre analfabetismo, a estimativa era de que 5,24% da população bauruense com 15 anos ou mais não se consideravam capazes de ler ou escrever um bilhete simples ou assinar o próprio nome.

O índice, que inclui as pessoas que aprenderam a reconhecer e desenhar palavras, mas esqueceram, caiu 2,81 pontos percentuais se comparado ao observado no Censo Demográfico de 1991 e mantêm-se abaixo do verificado no estado de São Paulo e na região administrativa de Bauru.

A expectativa é que a taxa de analfabetismo caia ainda mais quando o próximo censo for realizado e, da mesma maneira, as pessoas continuem cursando o ensino fundamental e, posteriormente, ingressem no ensino médio.

Para tanto, voluntários, governos e empresas têm travado uma batalha para atrair quem não teve oportunidade de estudar ainda durante a infância aos bancos escolares. Em Bauru, uma das iniciativas mais sedimentadas envolve o Centro Educacional de Jovens e Adultos (Ceja), que atualmente mantêm classes em 36 bairros da cidade para alunos com mais de 13 anos de idade.

Para compor as classes, os professores percorrem bairros, centros comunitários e empresas convidando as pessoas que não concluíram o primeiro ciclo do ensino fundamental (1.ª a 4.ª série) a se inscreverem. O trabalho árduo traz compensações para os dois lados: professores e alunos.

“A troca é grande. Os professores aprendem muito com o aluno e, por também fazer, muitas vezes, o papel de psicólogo e advogado, o professor acaba ganhando respeito e carinho muito grandes. É um elo de ligação que não se apaga. No processo de aprendizado, crescemos juntos”, afirma Marilene Franco de Souza, diretora do Ceja.

Esse elo fica claro na relação estabelecida pela faxineira Jovina Maria da Silva Araújo, 64 anos, com o Ceja. Depois de décadas afastada dos bancos escolares por conta de trabalhar desde criança, ela resolveu iniciar os estudos. Tomou tanto gosto pelos livros que conseguiu concluir o primeiro ciclo do ensino fundamental em 2003. Da experiência, ficaram as lembranças carinhosas.

“Guardo tudo no coração: a primeira professora, os amigos, a bagunça, a construção de frases... Tudo mudou na minha vida depois do curso e agora posso fazer o que mais gosto, que é escrever poesias. Quero continuar os estudos ainda neste ano porque tem muita coisa ainda para aprender”, afirma.

Jovina sente tanto prazer em escrever que gosta de compartilhar toda poesia concluída com o pessoal do Ceja. “Ela vem aqui declamá-las para os professores. É um exemplo”, confirma Souza.

Assim como Jovina, as letras descortinam o mundo para os alunos que retomam os estudos depois de adultos. “Não é só o ler e o escrever, eles relatam melhora na auto-estima, porque se sentem capazes de procurar seus direitos e fazer coisas consideradas simples por outras pessoas, como tomar ônibus sozinhos, assinar um documento. Eles mudam a postura”, descreve a diretora do Ceja.

O motorista Rivaldo Gonçalves da Silva, 38 anos, sente-se outra pessoa desde que retomou o ensino fundamental, no início de 2005. “Estou me sentindo mais valorizado. No começo foi difícil, os filhos estranharam, mas agora vi o quanto saber é bom e quero continuar a estudar. Se tudo correr bem, quero concluir o ensino médio”, garante.

Além do Ceja, os interessados em freqüentar aulas de supletivo podem recorrer às escolas municipais Santa Maria, na Vila Cardia, e Cônego Aníbal DiFrância, onde é oferecido o segundo ciclo do ensino fundamental (5.ª a 8.ª série).

Na rede estadual, os interessados contam com o Ensino de Jovens e Adultos (EJA), que mantém salas de ensinos fundamental e médio ao longo da semana, além da Escola da Juventude, aos finais de semana. Todas exigem presença. Para quem prefere estudar em casa, a opção é a telessala, oferecida em escolas estaduais.

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