Bauru 109 anos

Preconceito é o maior obstáculo

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 3 min

Na opinião de voluntários e especialistas que atuam com a questão da aids, o preconceito é o principal obstáculo para o enfrentamento da epidemia, bem como para o desenvolvimento de campanhas de conscientização sobre o vírus HIV e as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

“Infelizmente, muitas pessoas ainda acreditam que a aids atinge apenas homossexuais, usuários de drogas e prostitutas, mas a verdade é que ninguém está mais protegido porque não há mais grupos de risco e, sim, situações de risco. O preconceito impede avanços na prevenção à doença e o acesso às formas de tratamento”, avalia a assistente social Mafalda Sparapan, coordenadora social da Sociedade de Apoio às Pessoas com Aids de Bauru (Sapab).

Os registros do Ministério da Saúde confirmam que a trajetória da aids não envolve mais grupos de risco. De epidemia com predomínio entre homens que fazem sexo com homens (HSH) na década de 80 ao início de 90, passou a ser predominante entre usuários de drogas injetáveis nos anos 90 e, atualmente, caracteriza-se pelo aumento da transmissão heterossexual em ambos os sexos, principalmente entre mulheres.

O estado de São Paulo e a cidade de Bauru acompanham a realidade nacional. No município, verifica-se o registro de 36,5% de casos entre heterossexuais e 36,9% entre UDI, segundo dados do Programa Municipal de DST/Aids.

“Hoje a tendência da epidemia na região de Bauru é de estabilização, porém é preocupante a transmissão entre mulheres e homens heterossexuais. Outro grupo que exige atenção é de adolescentes”, explica Eliane Monteiro, coordenadora do programa.

Para atingir as pessoas, o psicólogo Ricardo Mokdici afirma ser necessário sistematizar e tornar mais persistentes as campanhas de conscientização sobre HIV/aids, além de abordar temas relacionados à sexualidade desde os primeiros anos do ensino fundamental.

“Os pais precisam conversar mais claramente com os filhos sobre o assunto e os professores devem se preparar para trabalhar a questão em sala de aula. É necessário romper a hipocrisia e abordar o problema de frente, olhando para o futuro”, defende Mokdici.

Maria Lúcia Biem, psicóloga com especialização em educação e terapia sexual, acredita que a sexualidade deveria integrar o currículo das escolas desde o ensino fundamental. “Não adianta apenas realizar palestras sobre o assunto, é preciso um programa instituído na grade escolar para se mudar comportamentos”, avalia.

Os pais, por sua vez, devem procurar ler e se informar para poder abordar questões relacionadas à sexualidade desde a infância dos filhos. “Não se deve deixar o diálogo para a adolescência, fase em que os filhos estão mais distantes dos pais. Com a criança é possível se instituir um diálogo mais aberto. E depois que se fala muito, passa-se a não ter medo e o assunto deixa de ser tabu”, garante Biem.

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Acolhimento é estratégia para garantir atendimento

A atenção ao acolhimento na realização dos exames para detectar DSTs e no atendimento ambulatorial, domiciliar ou hospitalar é a principal estratégia para garantir a manutenção e ampliação dos serviços prestados pelo Programa Municipal de DST/Aids.

“É importante oferecer testagem com aconselhamento, indicando os possíveis resultados, orientando sobre situações de risco, janela imunológica, assegurando o exame confidencial e dando suporte emocional à pessoa que nos procura. A rede municipal está capacitada para realizar esse tipo de atendimento”, assegura a psicóloga Ana Paula Balderrama Carvalho, chefe do Centro de Testagem e Aconselhamento / Centro de Orientação e Apoio Sorológico (CTA/Coas). O atendimento aos pacientes segue a mesma linha. “Quando o paciente chega, o importante é acolhê-lo bem, para que ele volte e aceite melhor a situação em que se encontra. A estabilidade do quadro está diretamente relacionada ao equilíbrio emocional, principalmente, e ao físico. Se ele encara melhor a condição de portador do vírus ou a doença, melhor responderá ao tratamento e mais chances teremos de melhorar sua sobrevida com qualidade”, explica a médica infectologista Maristela Pastore Oliveira, coordenadora do Hospital-Dia.

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