Apesar de o presidente aparecer nitidamente blindado perante a crise que assola seu governo e seu partido, não restava dúvidas de que uma reforma ministerial se fazia necessária. As denúncias de corrupção que permeiam a administração federal já derrubaram ministros, presidentes e diretores de estatais, além de dirigentes partidários, o que evidencia a situação delicada pela qual passa o governo. Enquanto três CPIs dissecam os caminhos tortuosos da corrupção endêmica na administração Lula, o presidente tenta reconstruir uma base parlamentar esfacelada por meio da troca de ministros.
Foi sugerido que o governo buscaria um choque de gestão, entretanto, não encontrou êxito nesta tarefa. A troca de ministros buscava também trazer o PMDB unido para dentro do governo. Não conseguiu. Simplesmente foram trocados nomes que garantem a mesma base de apoio parlamentar peemedebista que o Planalto já possuía. Com a dificuldade de demitir já peculiar, o presidente solicitou que os próprios ministros saíssem, ou seja, sairiam aqueles que desejassem se candidatar nas próximas eleições. Esqueceu-se daqueles que disseram que ainda não têm certeza, e preferem fazer de seu ministério trampolim para uma robusta votação no próximo pleito.
O governo parece caminhar para um fim, talvez, melancólico. As CPIs mostrarão o fôlego que a administração Lula ainda terá. Entretanto, o presidente não mostrou habilidade ao mexer na equipe. Cada vez mais, tudo parece uma colcha de retalhos, uma administração sem rumo definido, incapaz de traçar linhas de gestão de longo prazo. Nos últimos dias, comentou-se em Brasília que o PP poderia aportar no governo por meio do ex-ministro Pratini de Moraes. É incompreensível que uma gestão que possua um mínimo de direcionamento programático e coerência tenha, de um lado, nomes como Furlan e Rodrigues, de outro Rosseto, Marina e Olívio (que já perdeu o cargo), e entre eles, a turma do PMDB, Saraiva, Hélio e Silas. Se aprofundarmos ainda mais a análise, veremos um outro lado da Esplanada com perfil diferente destes, como Thomaz Bastos e Amorim. Por fim, resta o último grupo, de sustentação econômica, onde estão Palocci e Bernardo. Está nítido que são vários governos reunidos em uma só estrutura, sem comando e gestão, atuando de forma desequilibrada, desarticulada e com falta de sintonia. Não é por outro motivo que somente a área econômica colhe elogios.
Se o Planalto ainda for tragado pelas CPIs, assistiremos um final de mandato deprimente. Contudo, se ainda encontrar uma saída da crise, será somente para o término do mandato do presidente e sua eventual tentativa de reeleição. Nada mais tem possibilidade de ser realizado até que termine o mandato de Lula diante da crise e paralisação do Congresso Nacional. Enquanto este ano será consumido por investigações das denúncias de corrupção, 2006 será de corrida eleitoral.
A avalanche de denúncias, até o momento, poupou o presidente, que manteve-se distante da crise, de acordo com a hábil estratégia traçada pela sua assessoria de comunicação. O erro pode ter sido cometido na França, quando em entrevista, Lula se envolveu na crise. Se provado que houve acerto das versões entre o presidente, Marcos Valério e a dupla Silvinho/Delúbio, pode ser o início do fim do governo. Se o objetivo é enfraquecer Lula, deve-se mirar no Planalto, no último mosqueteiro petista que habita o Palácio, no estrategista da resistência até o momento. Mesmo tendo cedido aos acenos do PMDB de Renan e aos desejos de Severino com o Ministério das Cidades, o castelo de cartas pode desmoronar.
O autor, Márcio Chalegre Coimbra, é advogado