Sai governo, entra governo, o “efeito dinossauro” continua o mesmo. Diante das dificuldades da agricultura o governo se comporta como este animal de cérebro curto e rabo comprido: a cauda está pegando fogo, leva um tempo enorme para a dor chegar ao cérebro, ele demora a entender o que se passa e quando resolve mexer, mexe para o lado errado...
O desarranjo na agricultura vem desde o início do cultivo da safra do verão 2004/2005 com a prolongada seca que afetou as colheitas de grãos no Rio Grande, Paraná e Mato Grosso do Sul. Além da perda de boa parte da produção os agricultores estão tendo prejuízo ao vender o que sobrou: eles compraram as sementes, adubos, fertilizantes quando o dólar estava em 2,90 reais e negociam agora com preços em queda, devido à forte valorização do Real provocada pela política de juros altos do Banco Central. Investiram também em equipamentos e vêem perder-se o esforço de modernização de suas lavouras. Descapitalizados, com os pagamentos em atraso e crédito mais difícil, eles limitaram as encomendas dos insumos e de equipamentos para o plantio da próxima safra. Uma das reduções mais fortes na produção da indústria este ano se deve exatamente à queda da demanda de máquinas agrícolas.
Nesses momentos de dificuldade, quando é mais necessário ampliar o suporte ao setor, o governo ignora os argumentos do seu ministro da Agricultura e põe sal nos ferimentos: o plano de safra que acaba de sair restringe o nível de crédito, penalizando o produtor que não está em dia com os pagamentos pelas razões que todos conhecemos, porque não teve produto e por ter confiado no governo! Saiu o seguinte, no plano de safra: os agricultores que não liquidaram até 40% das dívidas anteriores, vão ter seu nível de crédito cortado em 40% ! Se ele puder pagar um pouco mais, o corte será um pouquinho menor... Mais uma vez, o velho dinossauro aplica o “devido castigo” no produtor brasileiro...
A produção agrícola e suas exportações salvaram o Brasil do default (porque o país não teria como honrar a dívida feita no governo anterior) e ajudaram a recuperação da indústria no atual governo. A agricultura deu a contribuição decisiva para a queda da inflação. Como “prêmio”, os agricultores estão submetidos a um tratamento ignóbil: redução dos recursos para custeio das lavouras, acúmulo de endividamento e erosão nos preços de seus produtos graças aos reflexos no câmbio da maligna política de juros. É uma situação que gera conseqüências que se estenderão pelos próximos dois ou três anos. O governo precisa tomar consciência disso e passar a ouvir com mais atenção as advertências do seu ministro da Agricultura, porque o Brasil pagará um preço muito alto pelas dificuldades que está impondo aos produtores do campo.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP - e-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br