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Monti: base do Lula está esfacelada

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

Após as denúncias de corrupção envolvendo deputados de partidos aliados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo federal passou a “bater cabeça” e ficou sem força política para organizar sua base de sustentação. A declaração é do deputado federal Milton Monti (PL), único representante da região no Congresso Nacional.

Em entrevista ao Jornal da Cidade, ele falou sobre esse assunto e toda a agitação que tomou conta de Brasília por causa das denúncias de “mensalão”. O deputado comenta também a renúncia do deputado federal Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL e um dos acusados de ter se beneficiado do esquema de caixa 2 (dinheiro não contabilizado oficialmente) montado pelo PT para pagar dívidas da campanha eleitoral de 2002.

O parlamentar informou que os saques realizados pelo partido para pagamento de despesas com a campanha ocorreram de setembro de 2003 a janeiro de 2004. No entanto, o deputado nega a existência do esquema do “mensalão”.

Segundo ele, o PL não precisa de dinheiro para votar a favor do governo porque o partido faz parte do governo e não da base de apoio. Em meio às denúncias de corrupção, Milton Monti pede que a população mantenha a esperança em dias melhores e que nem tudo está perdido.

“A gente não pode com isso generalizar as coisas. Não podemos deixar a impressão (...) de que a política não dá certo”, destacou o parlamentar. Leia a seguir alguns trechos da conversa com o deputado.

Jornal da Cidade - A renúncia do deputado Valdemar Costa Neto foi uma surpresa para o senhor?

Milton Monti - Foi uma surpresa para todo mundo. O vice-presidente (da República, José Alencar) foi o único que soube na véspera. O Valdemar protocolou (a renúncia) logo de manhã (na segunda-feira). À tarde, apenas duas pessoas ficaram sabendo minutos antes de ele ir a plenário (anunciar a decisão). A renúncia é sempre uma atitude espontânea e pessoal. Ela não foi debatida entre os deputados da bancada.

JC- Alguns senadores do PT e do PSDB disseram que a renúncia foi uma “confissão de culpa” do deputado Valdemar. O que o senhor achou disso?

Monti - O próprio Valdemar, no discurso, assume a culpa. Ele fala que foi induzido ao erro pelo PT quando aceitou recursos para pagar compromissos de campanha de forma informal. Certamente, ele será chamado pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito do “Mensalão”). Por isso, ele vai reunir todas as informações para declarar aquilo que ele recebeu e quais as despesas que foram pagas.

JC - Quando foram feitos esses saques?

Monti - Os saques foram realizados de setembro de 2003 a janeiro de 2004. Isso mostra que não era uma coisa periódica, nem sistemática, que poderíamos chamar de “mensalão”.

JC – O senhor já esteve alguma vez no Banco Rural?

Monti - Eu nunca visitei o banco, nem eu nem ninguém da minha assessoria. Eu não participei nem recebi dinheiro (do suposto esquema do “mensalão).

JC -Como é que está o clima no Congresso Nacional depois de tantas denúncias de corrupção envolvendo deputados, principalmente da base de apoio ao governo Lula?

Monti - É claro que o clima político é ruim. Ele está carregado e atrapalha a seqüência dos trabalhos. Há um esforço das lideranças no sentido de elencar temas importantes para que a gente possa, mesmo tendo as investigações da CPI, votar projetos que sejam úteis para o País. Estamos trabalhando para que isso aconteça.

JC - Apesar desse esforço, o senhor acredita que isso será possível?

Monti - Eu acho que é possível. Evidentemente, não vai dar para votar tudo aquilo que o governo quer. Mas alguns projetos, se forem bem trabalhados, se a oposição ceder um pouco e o governo mais um pouco, acho que é possível.

JC - E como é que está a base de sustentação do governo no Congresso?

Monti - Está tudo esfacelado. O próprio governo está batendo cabeça. É uma situação que dificulta na hora de arregimentar força política. Não que a base esteja contra o governo ou esteja disposta a não votar as coisas do governo. Apenas falta aquela operacionalidade política dentro do Congresso, no sentido de articular, mobilizar, fazer a coisa acontecer. O pessoal está com a cabeça em outro lugar.

JC - Seria uma preocupação com as denúncias e as investigações da CPI?

Monti - Parte da agenda dos parlamentares é naturalmente ocupada pelas CPIs, tanto a dos Correios como a do Mensalão, que começa esta semana.

JC - E como conseguir votar os projetos importantes com essa preocupação dos deputados com as CPIs?

Monti - A primeira coisa que o governo precisa fazer é estabelecer uma agenda. O governo não apresentou uma agenda ainda. Tudo que for discutido em cima de suposições será inócuo. O governo tem de chegar e dizer, por exemplo, que quer votar a reforma tributária, a reforma política, que gostaria de tratar do projeto das micros e pequenas empresas. Enfim, o governo tem de apresentar uma pauta. A partir daí, nós temos que nos debruçar sobre ela, conseguir os acordos e colocar em votação. Sem apresentar essa pauta, as coisas não andam.

JC - Voltando às denúncias, como o PL está tratando o assunto “mensalão”? Houve alguma ruptura interna, algum grupo está querendo que o partido deixe de apoiar o governo?

Monti - Vejo alguns comentaristas políticos colocar o partido numa posição diferente do que ele realmente tem. Virou um pensamento comum que o PL faz parte da base de apoio ao governo, assim como o PP, PTB e PSB. O PL não é da base. Ele é do governo. O PL é o único partido que foi eleito junto com o PT. Então, é diferente. O PL não precisa fazer acordo nenhum para ter cargo. Nós não somos aliados, nós somos governo.

JC - E como o vice-presidente, José Alencar (PL), tem recebido essa série de denúncias contra o governo?

Monti - O vice-presidente está numa posição muito digna. Li uma entrevista recente do Collor (ex-presidente Fernando Collor de Mello) em que ele critica o Itamar (ex-presidente Itamar Franco), dizendo que na época do impeachment dele, o Itamar conspirava contra o mandato do Collor para assumir (Itamar era vice do Collor). Hoje, você nota o José Alencar numa atitude de total lealdade, de total discrição. Ele faz questão de não aparecer para não passar a impressão de que ele está conspirando contra o presidente Lula.

JC - O senhor acredita que essas denúncias possam desestimular ainda mais o eleitor brasileiro?

Monti - A gente não pode com isso (denúncias) generalizar as coisas. Não podemos deixar a impressão na opinião pública de que não temos mais esperança, de que a política não dá certo, que não vamos votar em mais ninguém. Esse é o pior caminho para a democracia brasileira. Precisamos, com isso, tirar lições e melhorar. Acho que as pessoas têm de avaliar melhor e não votar porque recebeu uma cesta básica, uma camiseta ou qualquer outro brinde. Tem de analisar as pessoas e votar em quem o eleitor conhece, em quem tem algum serviço prestado.

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