Na famosa série americana “Sex And The City”, quatro mulheres na faixa dos 25 e 30 anos expõem e quebram tabus sociais ao falar sobre sexo e fazer sexo casual sem constrangimento, entre outros temas polêmicos. Na ficção, a relações-públicas Samantha, interpretada pela atriz Kim Cattrall, é adepta do prazer sem compromisso e troca constantemente de parceiros, sem se envolver afetivamente com eles.
A exemplo do seriado, é cada vez mais comum encontrar mulheres solteiras que preferem ou praticam o sexo casual, comportamento há décadas adotado por grande parte dos homens solteiros. De acordo com psicólogos e cientistas políticos, a nova postura feminina está relacionada ao processo de liberação feminina, impulsionada pela Revolução Industrial.
“Não há qualquer obstáculo biológico ou psicológico para que a mulher, assim como o homem, possam exercer a sexualidade sem que haja vínculo amoroso”, diz a psicóloga bauruense Carmen Maria Bueno Neme.
“Embora existam muitas diferenças entre homens e mulheres em relação a aspectos genéticos, biológicos, hormonais, perceptuais, neuropsicológicos, emocionais e afetivos, tais diferenças não impedem a mulher de se relacionar sexualmente e de forma prazerosa, independentemente de sentimentos amorosos”, completa Neme.
O sexo casual sempre foi encarado com naturalidade pela advogada Inara*, 35 anos, que foi adepta da prática durante três anos. Após um namoro de dez anos, ela conta que optou pelos encontros sem compromisso. “Vivi um relacionamento machista. Eu não trabalhava e não estudava, vivia em função do meu namorado”, diz.
“Depois que nos separamos, cursei direito e começei a ver o homem a partir de outro ângulo. Até então eu o via como o salvador da pátria, a minha bengala, sem ele eu não iria viver. Após a decepção, resolvi fazer tudo totalmente diferente: fui trabalhar, estudar e, lógico, não conseguia ficar sem o sexo”, conta Inara, que namora um empresário desde 2000, fruto de um encontro casual.
Liberação feminina
Para Inara, os envolvimentos casuais resultam da evolução social e colocam homens e mulheres no mesmo “patamar”. “Hoje a mulher tem essa opção. Antes ela era educada para o casamento, muitas vezes casava virgem e corria o risco de não ser feliz. Não é uma aliança ou um casamento que vai trazer a felicidade, mas sim um relacionamento saudável”, opina.
“No meu caso, para alcançar esse relacionamento saudável, tive várias relações casuais. No primeiro instante, carregava expectativas. A pessoa poderia ser inteligente, havia uma atração, só que no momento do sexo não foi bem o que esperava”, diz Inara. “Hoje tenho a liberdade de ser uma pessoa fiel porque tenho a opção de saber o que eu quero e quem eu quero”, observa.
Independência
O sexo descompromissado também é uma opção na vida da publicitária Maria Eduarda*, 28 anos. Mãe de uma menina de 7 anos, ela conta que já viveu diversas experiências em encontros casuais. “Sempre fui uma pessoa independente, saía e tive vários tipos de amizade. Conheci a vida muito cedo. Quando tinha 17 anos, conheci um homem de 40 anos, com quem tive minha filha”, conta.
“O sexo nos aproximou, houve uma paixão e ficamos juntos uns quatro anos. Meu bebê veio num momento errado, quando a relação já estava desgastada. Aí optei por tê-la sozinha, uma produção independente”, acrescenta a publicitária.
O exemplo de Maria Eduarda é citado pela cientista política e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara Maria Teresa Kerbauy para explicar as consequências do sexo casual. “Para a religião católica, o sexo é uma condição de reprodução familiar, não é um comportamento de liberação da mulher”, diz
“As novas relações familiares que se estabelecem, como mulheres que querem ter filhos tendo o pai meramente como parceiro sexual, são uma discussão forte. Essas mulheres decidem que serão pai e mãe e isso traz consequências sociais”, analisa a cientista política.
Namoro?
Maria Eduarda diz que, embora seja difícil optar pela produção independente, pode significar uma vida sem cobranças excessivas por parte de um parceiro. “Fiquei sozinha praticamente cinco anos. Isso aconteceu não só por mim, porque muitos homens estranham a mulher independente”, revela.
Atualmente, a publicitária está “conhecendo melhor” - como ela própria define - um homem com quem já viveu encontros casuais anteriormente.
“Hoje apareceu uma pessoa que tem afinidades comigo, que respeita meu espaço. Há dias que eu não quero conversar, sair ou fazer amor. Estamos juntos há alguns meses, mas não cobro nada e costumo não ligar muito. Não sou aquela mulher melosa”, diz Maria Eduarda.
* (Nomes fictícios usados para preservar a identidade das entrevistadas
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Diferenças
Apesar de comum a homens e mulheres, as relações casuais esbarram em diferenças no funcionamento sexual feminino e masculino, tanto derivadas de aspectos anatômicos quanto de emocionais, aponta a psicóloga Carmen Maria Bueno Neme.
Ela destaca alguns pontos sobre o comportamento sexual observados em pesquisas. Um deles envolve as diferenças entre homens e mulheres quanto à curva de excitação sexual. Enquanto eles se excitam mais rapidamente e “desaquecem” mais rapidamente após o orgasmo, produzindo uma curva de excitação mais acentuada, elas apresentam uma curva de excitação menos acentuada, um pouco mais lenta e com um declínio também mais lento.
Outra diferença é que o funcionamento sexual masculino é mais dependente de variáveis orgânicas do que o das mulheres. As disfunções sexuais masculinas são mais relacionadas a doenças como diabetes, problemas vasculares ou hormonais. Já as mulheres são mais dependentes de fatores emocionais ou educacionais. Um exemplo: se o casal briga ou se há mágoas, a mulher pode ter dificuldades para uma boa relação sexual.
Segundo Neme, a educação sexual feminina é distinta do homem, em geral mais permissiva. No caso da mulher, ela pode ser mais repressora. Na maioria das vezes, os homens possuem menos informações adequadas sobre a sexualidade masculina e feminina do que as mulheres.
O comportamento sexual das mulheres, atualmente mais direto, pode inibir e causar insegurança em alguns homens, principalmente adolescentes e jovens, avalia a psicóloga.