Ser

Herança jornalística

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 11 min

O jornalista Amarildo de Oliveira, 39 anos, é literalmente uma pessoa que nasceu para trabalhar com as informações. Filho de um radialista, ele é fruto de uma geração de profissionais da área que não cursaram faculdade e obtiveram registro no Ministério Público do Trabalho (MTB) por meio da experiência profissional.

Experiência iniciada há cerca de 20 anos, em Rancharia, Interior de São Paulo, sua cidade natal. Eclético, Amarildo começou atuando nas rádios de Presidente Prudente, Marília e Maringá, passou pela imprensa escrita, com destaque para o jornal “O Imparcial”, de Presidente Prudente.

Atualmente trabalha na televisão, apresentando o programa “Record Urgente”, transmitido pela Record de segunda a sexta-feira, ao meio-dia, e o “Canto da Viola”, aos domingos, na mesma emissora.

A paixão pela música caipira e pelo jornalismo só não é maior do que o amor de Amarildo pela sua família. Casado há quatro anos, ele é pai de duas meninas, Marília, de 3 anos, e Mariana, de 9 meses. Ele conta que, por conta do trabalho, costuma brincar com as filhas de madrugada, após o expediente. O cotidiano de Amarildo, sua carreira e pontos de vista sobre o jornalismo são enfoques da entrevista concedida por ele ao Jornal da Cidade. Compartilhe os melhores trechos a seguir.

Jornal da Cidade - Quando surgiu a oportunidade de apresentar um programa de TV?

Amarildo de Oliveira - Fiquei 16 anos trabalhando em Marília e apresentei um programa televisivo de jornalismo local. Lá começou a essência da TV comunitária, que informava com o respaldo de professores e levando a comunidade. Depois saí da TV comunitária e resolvi desenvolver a produção independente. Foi quando lancei na Record o programa de variedades “Domingo 10”, às 10h no domingo, mas sofria com a dificuldade em buscar patrocínio. Com a mudança da direção da Record, surgiu uma oportunidade na edição noturna do “Cidade Alerta”. A pedido do diretor, preparei um projeto piloto com uma proposta que tinha como gancho elementos do “Cidade Alerta”, aliando a idéia de um “Alerta Regional”. Fiz as reportagens e apresentei. Aí fui contratado, há dois anos, exatamente no dia 21 de julho de 2003.

JC - O senhor falou em regionalização do jornalismo. É uma tendência atual?

Amarildo - O jornalismo regional é extremamente positivo, mas é preciso lembrar que a região hoje cobra mais informação. O telespectador está mais atento e preocupado, porque o impacto direto é na economia. Um exemplo é a cidade de Jaú, conhecida como a capital do calçado. Seus habitantes precisam de informação local. Por isso digo que regionalização é um caminho sem volta porque o público exige saber exatamente o que está acontecendo em sua cidade.

JC - Quanto mais o jornalismo se regionaliza, maior a exigência pela qualidade da informação?

Amarildo - Exatamente. Aí é que entra o formato, o chamado jornalismo de bancada, que é aquela coisa do TP (teleprompter - gerador de caracteres em que o apresentador lê as notícias). Esse que eu faço eu não uso o TP, não fico preso a ele, é o jornalismo de essência, de se trazer o assunto, aprofundá-lo, um questionamento quase constante. Antes e depois das matérias.

JC - O senhor falou sobre a maior interação do público com a notícia. Esse “formato” corre o risco de ser tachado como sensacionalista?

Amarildo - Sim, mas acho que é um lapso de quem acredita nisso. Primeiro porque a pessoa fala sem conhecimento. O pessoal que vem saindo da faculdade, aqui na Record, diz que se vê uma coisa na teoria e esbarra na prática. A realidade é outra e hoje, no momento em que se discute que para se conseguir a carteira da OAB a pessoa tem de passar por um exame rigoroso, e a medicina também está com essa proposta, por que não se colocar isso também nas faculdades de jornalismo? Por que o recém-formado vem para as redações despreparado, o curso não prepara, habilita, mas não prepara.

JC - Por quê?

Amarildo - Um exemplo de uma pessoa recém-formada e habilitada. Naturalmente ela vai passar por um estágio e vai dizer: não foi isso que eu aprendi. Então hoje, quando estamos discutimos o jornalismo precário, é importante discutir a preparação do profissional. Nos Estados Unidos e na Alemanha, o curso de jornalismo não é necessário. No Brasil, um economista que vai participar de um programa de TV, hoje, é barrado porque não é jornalista. Mas ele é economista e vai ter que fazer um curso de jornalismo para falar de economia. O curso de jornalismo deveria ser aprimorado: por exemplo, por dois anos, o estudante deveria se dedicar à área da saúde, porque hoje há programas segmentados. Na minha opinião, o jornalismo deveria evoluir e isso não aconteceu. Hoje se discute muito o marxismo e as tendências, o que é positivo, mas em relação à prática?

JC - O jornalismo brasileiro importa muitos elementos da imprensa americana? Quais são as consequências desse modelo?

Amarildo - Sim, tudo. Hoje vemos uma geração sem referências. Os jovens hoje vão comer um lanche e não pedem um sanduíche com alface e uma carne. Eles já americanizaram a coisa, então é um cheeseburger, um hamburger. Não há uma referência nossa. Nós estamos endossando isso. Lá fora há orgulho e patriotismo, no Brasil não. O futebol e o samba são comerciais. Agora, se vê uma criança pobre jogando tênis ou basquete? E algumas jogam, mas não há oportunidade. E isso também é culpa da imprensa, que tem de mostrar.

JC - Bauru completou recentemente seu 109.º aniversário. Qual sua avaliação geral da cidade?

Amarildo - Tranqüila. Bauru não é uma cidade violenta, mas tem de se preparar porque o crime hoje foi fatiado através das facções que estão nos presídios. O PCC está mais vivo do que nunca e faz sua contabilidade dentro e fora da cadeia. Não há um mecanismo suficiente para combatê-lo, há a corrupção e ninguém chama isso para discussão. Quando se fala em sensacionalismo, é preciso pensar o que é sensacionalismo.

JC - Em que sentido?

Amarildo - Quando se fala em segurança, sempre faço uma pergunta: quando se vai alugar um imóvel residencial, a pessoa prioriza algumas informações. Ela vai a um determinado bairro, olha o conforto e vê se a casa é legal. O segundo aspecto que ela observa é ver se há segurança, e isso incide no comércio, desvaloriza o bairro e o imóvel. E tem imóveis que estão sem alugar há muito tempo porque determinada região é violenta. Então é preciso chamar isso para discussão. Não é uma exploração do mundo cão, mas um questionamento sobre a nossa segurança.

JC - Qual sua opinião sobre o jornalismo de variedades, que enfoca a vida de artistas ou celebridades, por exemplo? E em relação ao jornalismo segmentado, cuja abordagem é voltada para alguma área do conhecimento, como cultura, saúde ou comportamento?

Amarildo - No primeiro caso, acho que não é jornalismo. É fofoca, cuidar da vida pessoal das pessoas. Em relação ao jornalismo segmentado, os cadernos de moda e cultura, por exemplo, são legais e necessários. Mas não se pode elitizar, fazer um segmento sem vertentes. Porque pessoas do Primeiro Mundo vêm para o Brasil e ficam apaixonadas pela Favela da Rocinha. E nós aqui temos um preconceito, continua focado na cor e no que a pessoa veste. Então, quando se pega um cidadão, poderia se explorar o que ele faz, sua criatividade. Isso teria que acontecer no bairro e não no Centro. Ou ainda uma costureira que tem uma habilidade, uma estilista, alternativa de produtos no mercado. Aí é que entram esses segmentos.

JC - Responsabilidade social é uma das temáticas em alta no momento. De que forma o jornalismo atua nessa área?

Amarildo - O programa tem esse foco. Nós fizemos uma parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), um projeto chamado “Direito de Denúncia”, pelo qual vamos ao Calçadão, nos bairros, nas 13 cidades que contam hoje com subseções da Ordem. São advogados e acadêmicos em contato com a população, discutindo Previdência Social, direito de família, enfim, tudo que a pessoa tem dúvida. Muitas pessoas carentes nem sabem os direitos que têm e por meio desse projeto podemos levar um representante do INSS, a própria polícia para expedir um RG, ou alguém para auxiliar no Estatuto do Idoso. A nova proposta do “Record Urgente” é tratar, em cada dia da semana, sobre Previdência, Estatuto do Idoso, consumidor, sem contar o que está acontecendo. O foco do programa não é o policial. É que o programa é estigmatizado porque eu sou gordinho.

JC - Em que sentido seguir um estereótipo atrapalha o jornalismo?

Amarildo - Eu tenho o biotipo do Datena (apresentador da Band, que já trabalhou na Record), e ele sim trata só da questão policial. Sou gordinho e acho que se deveria mudar o estereótipo na TV. Algumas TVs adotam isso: primeiro a estética e não se leva em consideração a qualidade. Sou uma prova fiel que dá certo: sou gordinho e calvo.

JC - O senhor é a favor do jornalismo que presta serviços à população?

Amarildo - Sim, e algumas vezes ele é criticado. Mas fala-se de longe, ninguém vem para conhecer. Quando alguém conhece o dia-a-dia fica apaixonado porque o jornalismo é apaixonante.

JC - Nesses 20 anos de jornalismo local, quais casos o senhor destacaria como mais interessantes?

Amarildo - Um deles foi em Marília. Um estudante de medicina degolou os pais, simulou um roubo e a polícia começou a entrar em detalhes do crime, chamando a atenção do delegado. Entrou na delegacia como vítima de roubo e saiu de lá como indiciado. Eu estava cobrindo e prestando atenção, ele entrava em muitas contradições. Questionado pelo delegado, o estudante citou o nome de seu comparsa. Outro caso é relacionado ao reconhecimento de cadáveres. O programa já identificou cinco pessoas mortas, encontradas sem documentos, por meio de tatuagens ou marcas pelo corpo. Até recebemos uma carta de agradecimento do Instituto Médico Legal (IML) por isso.

JC - O senhor é apaixonado pela sua profissão?

Amarildo - Sou. Eu digo o seguinte: não foi eu que a escolhi, foi ela que me escolheu. Algumas pessoas podem ficar em dúvida: vou fazer faculdade de direito ou jornalismo? Eu não. Nasci em redação, meu pai é de rádio há 30 anos. Eu via essa correria e ficava apaixonado. Nunca tive dúvidas sobre minha carreira e também não é por questões financeiras, porque essa profissão não dá dinheiro. É preciso ser apaixonado por ela, é um sacerdócio. O profissional de jornalismo - quando se fala em profissional não é apenas o repórter, mas o cinegrafista, o motorista - tem de lidar na televisão com um negócio chamado ego. Há vaidade, uma coisa difícil e complicada de se lidar.

JC - O senhor falou em paixão e dedicação ao jornalismo. Como conciliar família e profissão?

Amarildo - Para responder, vou usar uma frase do professor Zerbine, de medicina. Ele falou para os acadêmicos e disse que de 100 formandos, 50 vão trabalhar, 30 serão reconhecidos, 20 ganharão um patamar a mais, desse total apenas cinco serão reconhecidos pela capacidade médica, pela determinação e porque vão se entregar de corpo e alma. Esses não terão vida familiar. E o jornalismo é a mesma coisa porque é preciso pesquisar, trabalhar. Ou se é omisso ou se erra na ação. Eu prefiro errar na ação do que ser omisso e com isso não se tem vida familiar.

JC - E como fica seu contato com suas filhas e sua esposa?

Amarildo - De madrugada eu brinco de bola com minha filha. Minha esposa também cobra. É difícil com meus pais também. Eu nunca parei para pensar se estou certo ou errado.

JC - E atividades de lazer?

Amarildo - Gosto de gravar o programa de viola, sobre a cultura da música raiz. Eu sou pesquisador da música raiz e desde que me conheço por gente gosto dessa cultura. Tenho vinil e não pesquiso só a música, mas os compositores e poetas caipiras. Aí é que entra o lazer.

JC - O que o senhor está lendo atualmente?

Amarildo - Estou lendo um livro sobre jornalismo chamado “O Jornalismo em Evolução”, de Roberto Rodrigues, que trata da questão da lealdade com a notícia.

JC - O senhor tem algum projeto em vista?

Amarildo - Sim. Pretendo ficar no jornalismo somente até o ano que vem, porque ele é desgastante. Quero me dedicar a uma área ou segmento. Eu adoro agropecuária ou agronegócios, quero me dedicar às informações, ao jornalismo da terra e de sua produção, continuando a pesquisar a música caipira. Seria uma delícia mostrar o pequeno produtor, a família e a cultura hoje no campo.

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