Na minha infância os adultos diziam que agosto era “mês de cachorro loucoâ€. Meio de inverno seco e poeirento, propício ao aparecimento de moléstias do aparelho respiratório. Em agosto Getúlio suicidou-se. Jânio renunciou. Fico pensando o que poderá acontecer ao País mergulhado neste festival de lama que já cruzou as fronteiras e ganha manchetes nos jornais portugueses. A mala do mensalão, em Portugal é chamada de “saco azulâ€. Por que será? Pergunto ao meu amigo Ribeiro, que veio do Ribatejo, mas ele responde não saber, “mas é uma bela cor, disso não tenho dúvidas...†Concordo.
Preciso me policiar para não perder muito tempo diante da televisão que transmite, ao vivo, as audiências das CPI‘s. O que me prende na telinha são as perguntas racionais, frias, inteligentes, nas quais o questionador expõe, durante dez minutos, o que pensa dele mesmo para depois, já estourado o tempo, levantar sua dúvida pragmática. As respostas em geral são curtas e revelam desconhecimento dos fatos ou inocência. Nota-se uma forte tendência de se promover a desqualificação sumária das expressões sentimentais. Desde que caiu em descrédito a ideal de Rousseau a respeito da bondade natural do ser humano, paira sobre a bondade uma suspeita constante. Um sujeito bom se defronta o tempo todo com a desconfiança dos outros, que não podem deixar de perguntar: será um malandro? ou apenas o paspalhão? Um amigo, lá de Vitória, no Espírito Santo, me manda um e-mail: “O Huguinho, o Zezinho e o Luizinho sabiam. O Pato Donald também sabia. Só o Pateta não sabia...†Leio alhures comentário sobre o deputado Professor Luizinho (PT-SP), ameaçado de cassação por ter feito uma retirada do valerioduto de somente R$ 20 mil. O menor de todos os saques. Professor, como sempre, mal pago.
Um poeta espanhol explicava, num dos seus versos: “Sou, no bom sentido da palavra, bomâ€. Então, o termo “bom†é ambíguo. No tempo de escola primária Marcos Valério foi apelidado de “Marcos B.G.â€, pelos coleguinhas. No dia em que o vizinho de carteira, na sala de aula, insistiu que lhe passasse a borracha, por empréstimo, Marcos levantou-se aos berros: “Eu não tenho borracha. Eu nunca erro!†Ficou conhecido por Marcos Bom Geral. De fato, se não é a besteira daquele bagrinho dos Correios pegar os míseros 3 mil reais, Marcos B.G. terminaria dono do Banco do Brasil.
O dramaturgo alemão Bertold Brecht, na peça “A alma boa de Setzuan†mostra como a bondade que não consegue reconhecer seus limites acaba por se negar a si mesma. Na peça, a personagem lidera uma comunidade, mas, não consegue disciplinar as atividades e fazer prevalecer a justiça, porque era muito boa. Assume, então, a identidade de um primo, capaz de exercer a coerção para que todos se beneficiem dos bens coletivos.
A bondade não pode dispensar a inteligência. Mas a inteligência também não pode dispensar a bondade. Lula foi bonzinho ao deixar que a “turma do Zé†tomasse conta de tudo. Conforme um dos seus últimos discursos, ninguém governou tanto com o coração. Quem tem responsabilidade de dirigir um país precisa fazê-lo, primeiro com o cérebro. Há os que consideram um mal da modernidade esse distanciamento, cada vez maior, entre o coração e o cérebro. Lichtenberg, que era corcunda, dizia que, pessoalmente, já estava dando um exemplo do encurtamento do caminho entre o cérebro e o coração.
Hoje ninguém mais se comove quando Lula chora ao falar de sua mãe, uma sábia analfabeta. Os petistas que expulsaram a senadora Heloisa Helena do PT, apareceram na televisão com a fisionomia de jogadores de pôquer. Impassíveis, frios, burocráticos. Hoje, sentam-se diante da senadora na condição de acusados, embora ainda informalmente, mas com a cara de tacho dos devassos que se faziam passar por virgens.
É preciso tomar cuidado com agosto. Rima com desgosto - diziam, os antigos. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)