Certa vez, um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Ao acordar, extremamente assustado, mandou chamar um sábio para que fizesse a interpretação do sonho. O sábio ouviu atentamente a narrativa e concluiu: “Que desgraça, senhor! Cada dente caído representa a perda de um parente de vossa majestade!” O sultão, irritado com a análise, exclamou, gritando: “Mas que insolente! Como se atreve a dizer tal coisa?” Chamando os guardas, ordenou que aplicassem, no infeliz do sábio, a corretiva de cem chicotadas. Desejando ainda saber o significado do sonho, o sultão mandou que chamassem outro sábio. Este, ao ouvir a narrativa do sultão, explicou com muita calma: “Senhor, uma grande felicidade vos está reservada! O sonho indica que ireis viver mais que todos os vossos parentes!” A fisionomia do sultão se iluminou e ele mandou dar cem moedas de ouro ao sábio.
Salomão é considerado pela tradição como o personagem mais sábio do Antigo Testamento. Não é por menos. No início de seu reinado, nada menos que o Todo Poderoso aparece em seu sonho e lhe concede a chance com a qual todo mortal sonha: Deus lhe concede a realização de um pedido. Salomão, porém, não pede a Deus saúde, riquezas, vitórias nas guerras, proteção ou a cura de algum doente. Talvez se Salomão fosse Alexandre o Grande, ele viesse a pedir a Mesopotâmia, ou até mesmo toda a Ásia. Salomão, sem hesitar, faz a Deus um pedido simples e curioso: um “coração inteligente”. Talvez seja esta a passagem bíblica que demonstre com mais clareza a sabedoria de Salomão (1 Rs 3, 5.7-12). Em primeiro lugar, Salomão é sábio porque intuía que Deus não atende a determinados pedidos. Depois que deu origem ao universo e ao homem, Deus não mais se envolveu no rumo da natureza e muito menos na liberdade humana.
Apesar de muitos seres humanos sentirem e demonstrarem o desejo infantil de receber de Deus a proteção contra os males, a saúde física ou oportunidades materiais, basta olharmos para o nosso mundo e raciocinarmos um pouco para percebermos (por mais que tenhamos medo em admitir) que Deus não age desta forma. Afinal, as catástrofes naturais, a quantidade de crianças que morrem por minuto em nosso planeta, os doentes que sofrem sem a perspectiva da cura ou a maioria que vive em uma situação de miséria ou pobreza extrema demonstram o contrário. Em segundo lugar, a sabedoria de Salomão se encontra na compreensão de que é nossa a responsabilidade a construção de um mundo no qual todos tenham aceso à saúde, emprego, moradia, alimentação e perspectiva de realização pessoal. Nós é que temos a responsabilidade de nos respeitarmos mutuamente, evitando a agressão e a violência. Está em nossas mãos e em nossa consciência o fato de sermos mais solidários, fraternos e generosos.
Por fim, o grande sinal de sabedoria de Salomão está na percepção do que Deus, sem alterar a liberdade humana, pode fazer por nós: alimentar nossa força interior para sermos mais lúcidos e bondosos. Aqui está o sentido do pedido de Salomão: um coração inteligente. O coração é considerado a sede dos sentimentos, das emoções, da consciência, ou seja, da sensibilidade. A inteligência, por sua vez, é a capacidade de pensar, a faculdade própria ao homem cujo ato é compreender a essência das coisas. A etimologia de inteligência é “intus legere”, ou seja, ler dentro. Apesar de possuirmos estas duas dimensões (a sensibilidade e a inteligência), vivemos, muitas vezes, como verdadeiros monstros. Desenvolvemos a nossa capacidade de pensar, agimos racionalmente e compreendemos logicamente o mundo, porém, nos falta a sensibilidade necessária de compreendermos o contexto no qual nos encontramos e a situação na qual as pessoas que nos circundam estão vivenciando. Temos uma “cabeça” gigantesca ou de bom tamanho, mas um “coração” tão pequeno que se torna incapaz de pulsar verdadeira vida em nosso cérebro. Ou então, somos sensíveis e amamos verdadeiramente a vida, a nós mesmos e aos outros, somos generosos e fraternos, mas estamos alienados do que acontece ao nosso redor, não raciocinamos sobre a qualidade de nossas boas ações, sobre a aplicação de nossos sentimentos, nos ferimos facilmente e nos demonstramos frágeis demais diante de palavras e ações de outras pessoas. Salomão faz a escolha ideal do viver, a unidade perfeita chamada “ser humano”, alguém que deve possuir um “coração inteligente”. Para quem acredita na existência de Deus, este sim é um pedido digno de ser feito e que pode ser concedido. Quem convive com Deus e desenvolve esta individuação através do coração inteligente, não precisa pedir mais nada. Está pronto e disposto para lutar contra todas as dificuldades e desfrutar do que a vida pode trazer de bom. “Deus não ama os tolos, pois seu espírito divino se chama espírito da inteligência. A tolice se expia pela dor e a escravidão. O bastão é feito para as bestas” (Eliphas Levi).