Annita Napoleone Guarido, 93 anos, nasceu em Agudos em 1911, de onde nunca saiu. Na época, ela lembra, eram poucos os carros que transitavam pelas ruas. Filha de italianos, ela sempre viveu na cidade, que considera a melhor para se viver. Nesse tempo todo, a única mágoa que guarda é que o cine-teatro São Paulo, palco de apresentação de peças e operetas, foi descaracterizado.
O prédio construído por seu pai, um arquiteto que chegou da Itália com 15 anos, perdeu o que tinha de mais precioso. “O cine-teatro tinha frisas (cada um dos camarotes de um teatro situados quase no nível da platéia) e camarotes. Nele eram apresentadas as operetas e peças de teatro. Hoje não temos uma sala. Ninguém vai reconstruir as frisas e camarotes.”
Ela lembra com saudade do tempo em que o cine-teatro São Paulo recebia grandes companhias. “Até companhias internacionais se apresentaram no cine-teatro. Numa determinada época, o prédio foi alugado e o prédio perdeu as frisas e camarotes. Eles quiseram fazer um cinema moderno, hoje não exibe filmes e muito menos peças de teatro.”
Da antiga Agudos, a moradora lembra da fundação do colégio Nossa Senhora do Sagrado Coração. “A cidade ganhou muito com a construção do colégio. Os moradores não tinham onde estudar, colégio das irmãs Franciscanas foi um salto para Agudos. A partir dele, as pessoas saiam do 3.º ano escolar e ingressavam no colégio. Antes dele não havia 4.º ano.”
Para dona Annita, relembrar essa época é motivo de emoção. “Eu fui a primeira aluna matriculada e a primeira diplomada. Atualmente, as irmãs não estão mais aqui. O colégio ainda existe, mas com outra finalidade. Foi lá que me formei professora e dele guardo boas lembranças.”
Diplomada em 1933, ela foi convidada a dar aulas no colégio. “Eu dava aula de música, ciências e português. Logo depois ingressei no magistério e fui trabalhar na fazenda Serraria.”
Muitos parentes
Grande parte dos moradores da cidade de Agudos é parente de dona Annita. “Meu pai teve dez filhos e os filhos tiveram netos e a família cresceu aqui. Eu conheço a maioria dos moradores.”
Além de arquiteto, o pai de dona Annita também tinha uma loja de ferragens e material de construção. “Na época eram poucas as lojas. Além da dele, tinham outras poucas. Um armazém e outra que vendia roupas e sapatos”, lembra.
Ela tem orgulho da cidade. “Eu vivo aqui e não quero sair. Tenho uma filha morando em Ribeirão Preto e outra em Bauru, saio só para passear. Eu gosto do povo, da vida simples e tenho orgulho de morar onde está localizado o maior seminário franciscano da América Latina.”