Voltar às aulas depois de um mês inteiro de férias pode se transformar num verdadeiro tormento para crianças e adolescentes. Ninguém gosta de trocar o descompromisso das férias pela rotina em que há uma hora marcada para tudo. O problema é que, em alguns casos, a recusa em voltar para a escola pode indicar coisas mais sérias do que uma simples preguiça ou manha. Muitas vezes, por trás dessa reação há um pedido de socorro.
O alerta é da presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia Nacional, Maria Irene Maluf. Ela comenta que um pouco de resistência é normal. Afinal, ninguém gosta de trocar a liberdade das férias por compromissos e responsabilidades com hora marcada, nem mesmo os adultos.
“Geralmente, essa relutância desaparece depois de alguns dias. Mas algumas crianças continuam implorando para não ir à escola. Elas choram, vomitam, têm diarréia, inventam mil coisas. Quando a recusa em voltar para a escola vem acompanhada de sofrimento, é preciso investigar as causas reais dessa resistência. Problemas mais sérios podem estar acontecendoâ€, orienta.
Segundo ela, algumas vezes é a escola que não combina com aquela criança, seja no aspecto físico ou na metodologia de ensino. Ela cita o exemplo de uma paciente que estudava numa instituição de aspecto quase cinematográfico, linda, grande, cheia de jardins. Mas a menina parecia ter dificuldade de aprender. O problema? Ela queria um lugar mais aconchegante e a troca para uma escola menor resolveu a questão.
É o caso de Lucas (nome fictício), 7 anos. Ele diz que odeia ir para a escola, que acha muito chato ficar estudando duas horas até o horário do lanche, depois mais duas horas até poder ir embora. “Acho um tédio. Prefiro ficar em casa burrinho. Vou porque tenho que ir, senão minha mãe fica bravaâ€, afirma.
A mãe, que pede para não ser identificada, conta que já foi chamada muitas vezes à escola por mau comportamento do menino. “Havia suspeita de que ele fosse hiperativo ou tivesse déficit de atenção, mas tudo isso foi descartado. A psicóloga chegou à conclusão de que ele precisaria mudar de escolaâ€, informa.
Essa situação pode ser ainda mais marcante quando o casal tem dois filhos numa mesma escola, principalmente quando os professores tecem comparações entre os dois.
“Se você vai com uma amiga a uma loja de calçados, não é porque as duas calçam o mesmo número que vão comprar o mesmo sapato. As pessoas têm gostos diferentes, comportamentos diferentes e a escola que é uma maravilha para um, pode ser horrível para outro. Já tive um paciente que detestava a escola porque o uniforme era vermelho e ele odiava vermelhoâ€, observa.
Na opinião da psicóloga Marisa Eugênia Melillo Meira, doutora em psicologia escolar e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, as escolas precisam ter o cuidado de se mostrar atraentes para os estudantes.
Outra situação comum de recusa ao retorno às aulas é quando a criança foi muito bem no primeiro semestre e tem medo de não repetir o bom desempenho no segundo. “Ou o contrário. Ela foi mal antes e sabe que vai ter que se esforçar muito agora. É como ter tomado um remédio ruim e ter que tomar de novoâ€, salienta.
Outras vezes, o problema pode estar no relacionamento da criança com colegas. “Muitas vezes, as crianças são humilhadas pelos colegas, sofrem com apelidos, chacotas, porque usam óculos, porque são gordinhas ou tímidas demais. Algumas convivem com isso, outras sofrem muito e não querem mais ir para a escolaâ€, salienta Marisa Meira.
Ela também cita os problemas domésticos. “Há casos em que dificuldades em casa, a morte de pessoas queridas, separação dos pais ou quaisquer outros momentos difíceis na vida, na dinâmica da família, fazem com que a criança não queira ir para a escola. As reações aos problemas são muito individuaisâ€, observa.
Maria Irene Maluf acrescenta que a escola está para a criança como o trabalho está para o adulto. “A escola é usada como termômetro. Os pais raramente perguntam para o filho como ele está, mas todo dia perguntam como ele foi na escola. O desempenho dela na vida é medido pelo desempenho na escola. Então, a escola passa a ser muitíssimo importante, mas ela nunca é consultada sobre o que acha da escola ou como se sente láâ€, adverte.
Na opinião das especialistas, é preciso saber ouvir as queixas dos filhos. Antes de dar uma bronca porque ele se recusa a ir, é necessário perguntar por que ele se recusa. Ele pode estar pedindo ajuda para resolver um conflito mais importante que a simples retomada da rotina.