Milhões de pessoas, nos tempos da construção do comunismo na URSS, foram assassinadas sob o pretexto de se fazer reforma agrária. Mao Tsé Tung, ao decidir reeducar o povo chinês, afastando-o das mazelas do comportamento burguês, chefiou a chacina de 3 milhões de professores, intelectuais e administradores. Quando Cuba (e o fato se repetiu no Vietnã) se converteu ao comunismo, dezenas de milhares de boat people desapareceram no oceano, tentando fugir do país “liberado” da dominação burguesa.
Pergunta-se: onde estavam os círculos da esquerda intelectual, uma vez que não se pronunciaram diante destes genocídios? Estavam acusando os intelectuais não-marxistas (que defendiam a preservação de certas tradições, a moralidade, a liberdade e a busca da prosperidade) de ser adeptos do egoísmo individual, sectários de um capitalismo selvagem, contrários ao progresso social e à evolução dos costumes.
Tomando uísque envelhecido há 12 anos, conversando em botecos bem freqüentados ou em tertúlias nos campi, os jovens pequeno-burgueses partidários do pensamento politicamente correto, enunciado por Jacques Derrida, louvavam o charme dos “marginais”, dos “excluídos” e das “minorias” contra os pretensos reacionários que acreditavam nos valores universais do humanismo.
Afrontando a lógica formal, muitos desses despreocupados filhos da classe média chegaram à conclusão (respaldados em Derrida, Gramsci e Foucault) de que as desigualdades do sistema capitalista se transformavam em injustiças e as injustiças deviam ser corrigidas pela discriminações chamadas “positivas”: azar se alguns “machos brancos” eram sacrificados no caminho do emprego ou das universidades para deixar seu lugar às “minorias”. Bons genes deveriam ser punidos.
A estrada que leva do relativismo moral para o cinismo político é curta. E foi trilhada pelos jovens brasileiros, de boas famílias, que se tornaram marxistas: aprendendo as lições de construção de hegemonia, os filhos de Gramsci entoaram o batuque maquiavélico da tomada do Estado. Chegaram à chefia dos fundos de pensão, construindo a gerência estratégica do novo poder; articularam inacreditáveis contratos entre centrais sindicais e bancos. E, depois de 20 anos de férias, fazendo oposição a quem trabalha, movidos a uísque e conversa mole, chegaram ao poder e jogaram o País na presente crise.
Pilhados com o cuecão cheio de dólares e subornados pelo Marcos Valério, os enfants terribles criados sob a proteção de condomínios fechados esperneiam aos gritos de que tudo não passa de golpe da direita, que quer desacreditá-los. Imaginando que a moral dos outros não pode ser melhor do que a deles, os revolucionários de centro acadêmico, agora dizem que todo mundo rouba, todo mundo sonega, todo mundo tem caixa dois...
Eu trabalho como professor há 30 anos, não carrego dinheiro em mala e não sou amigo de gente como Marcos Valério. E tenho uma sugestão para os peter pan da esquerda, que teimam em não amadurecer: comprem um jornal e abram a página dos classificados. Procurem um emprego, que trabalho lhes fará bem. Depois de alguns anos no batente, fundem um Partido dos Trabalhadores. Talvez este seja de verdade um partido de trabalhadores...
O autor, Ney Vilela, é professor