Sou um sincero admirador da cobertura jornalística de Brasília. Gosto dos textos de jornal e do ritmo da tevê. Muitos rumos da recente história política brasileira foram realinhados graças ao esforço combativo de repórteres, editores e afins. Não fosse a imprensa em seus momentos de brilhante enfrentamento, estaríamos ainda mais atrasados politicamente - se é que isso é possível.
Ocorre que as redações de Brasília encolheram, a Internet ainda tenta equilibrar concisão com conteúdo (qual site deu algum “furo” político nacional recentemente?) e o jornalismo investigativo quase foi extinto. Vamos ao ponto: onde estavam os colegas nos últimos tempos que não detectaram nada a respeito de mensalão, mensalinho, caixa dois, depósito nas Bahamas, tráfico de influência, festinhas com dinheiro público, contratos fraternais, um certo Marcos Valério (que é de carne e osso, pode ser visto a olho nu) e maracutaias similares? O presidente Lula diz que foi “traído”. Nada sabia. É inverossímil? Tanto quanto afirmar que os jornalistas que reviram diariamente os latões do Congresso também desconheciam esse lixo todo.
Claro que entre ouvir falar e publicar há uma continental distância. É preciso apurar com calma e persistência - e foi aí que pegou. No ritmo frenético da concorrência, não há tempo para análises em perspectiva e exaustivas investigações - inclusive nas revistas semanais. Agora, com a autodestruição acionada pelos próprios congressistas, deve ter gente boa da imprensa sem almoço, jantar, família, amigos, lazer, banho, repouso e outras coisinhas supérfluas como essas. Todo mundo correndo atrás. O “salve-se quem puder” adotado por muitos políticos também deve imperar nas “grandes” redações e seus jovens e esforçados repórteres setoristas.
A imprensa, enfim, tinha a obrigação histórica de ter antecipado o atual escândalo - mas sem depender deste ou daquele parlamentar-pavão e seus egos inflados, interesses feridos e ilações em cascata. Não estou dizendo que é fácil - e checagem aprofundada sobre malas de dinheiro e favores maternais consome o tempo que as rotativas e os links ao vivo não oferecem. Mata-se um leão por dia. A cobertura (quente, sim) fica meramente factual, além de refém de entrevistas ensaiadas, fontes frágeis ou pronunciamentos burocráticos. Uma pena: alguns meses de antecipação pela imprensa e nós, em agosto de 2005, já estaríamos com esse imbrólio à beira de um desfecho. Mas, afinal, quem sou eu para criticar? Só sei que a coisa é feia e ainda vai longe. A dona corrupção teima em não ser página virada.
João Pedro Feza - jornalista