Cultura

Sobre mundos: O rato, o gato e o muro

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

“Simplesmente eu não entendo”, disse o rato, “com o passar dos anos o mundo se torna cada vez menor! Quando eu era pequeno tinha até medo de andar sobre este muro e demorava para chegar de uma extremidade à outra. Hoje, rapidamente chego ao final do muro e encontro a parede da casa”. “Você precisa somente olhar para os lados e ampliar seus horizontes!”, respondeu o gato, engolindo o rato de uma só vez.

Platão escreveu em uma de suas obras: “Deus governa todas as coisas, mas o acaso (tyche) e a oportunidade (kairos) com ele cooperam em seu governo dos negócios humanos. No entanto há um terceiro ponto menos extremista, o de que a arte (techne) também deve ser considerada”. Em outras palavras, o filósofo grego afirma que as circunstâncias de nosso cotidiano não podem ser compreendidas de uma forma unilateral. Toda situação surge de uma soma de fatores e a arte de viver está justamente em reconhecê-los interagindo ativamente com eles. Para quem acredita em Deus, este ser superior é o primeiro fator de todas as coisas; afinal, Ele é a fonte da vida. O impulso de vida que flui pelo universo afora veio desta imensa realidade que chamamos de Deus. Com ele começa o círculo que pretendo descrever neste artigo, o qual gostaria de chamar de o “circulo dialético da vida”.

Deus é a fonte de “água viva” de um aquário infinito. Os elementos que possuem impulso de vida, sejam eles minerais, vegetais ou animais, estão em movimento e, ao se encontrarem, dão forma ao que vemos em nosso cotidiano. Como em um simples jardim interagem a terra, as diversas plantas, os diferentes insetos e alguns pássaros, na sociedade encontramos a interação econômica, social, moral e religiosa de pessoas e classes sociais. O mundo se movimenta e o encontro ou choque não planejado, mas originário de diferentes elementos, podemos chamar de acaso. Muitas coisas inesperadas acontecem em nosso cotidiano, pois a vida, em constante movimento, é uma grande incerteza. A sensação de segurança que possuímos, na verdade, se constitui em uma grande ilusão, um mecanismo de sobrevivência, pois a qualquer momento pode nos acontecer algo de bom ou de ruim. “A incerteza dos acontecimentos é sempre mais difícil de suportar do que o próprio acontecimento” (Jean-Baptiste Massilion). Mas se raciocinamos sobre o acaso, ou seja, as diversas situações não planejadas em nosso dia-a-dia, podemos descobrir suas origens, o que elas podem nos ensinar e quais as perspectivas que temos a partir do acaso. Desta forma, o acaso se transfigura em oportunidade. “A vida está cheia de desafios que, se aproveitados de forma criativa, transformam-se em oportunidades” ( Maxwell Maltz).

A oportunidade surge quando abrimos as portas do acaso para o passado e principalmente para o futuro. Como a vida é movimento, as oportunidades não são eternas e insubstituíveis. Elas fluem e desaparecem. Ao percebê-las, o ser humano não deve deixá-las escapar; afinal, aprendemos muito mais da vida se mergulhamos em suas experiências oportunas. Porém, o universo não está em movimento simplesmente pela força de Deus, pelo choque dos elementos em movimento no universo (acaso) e pelo surgimento de oportunidades.

A realidade é dinâmica também através do fazer humano, ou seja, por aquilo que Platão chama de arte. A arte é todo agir criativo do ser humano que não somente altera o universo, mas oferece ao próprio ser humano a sensação e satisfação de estar realmente vivo. “A arte é a verdade escolhida” (Alfred Vigny). No agir, o ser humano não fica à mercê do acaso e muito menos à espera das oportunidades. Com o impulso de vida dado por Deus, nós, seres humanos, estabelecemos a direção que desejamos ao acaso e criamos nossas próprias oportunidades. Neste agir criativo do ser humano fecha-se o “circulo dialético da vida”, pois através da livre interação do pensar e do agir podemos elevar a qualidade de nossa vida e, através deste viver ativo, nos aproximarmos de Deus, sentindo com mais intensidade a sua presença. A questão primordial para nós está neste agir criativo. Afinal, Deus já fez sua parte, o acaso e a oportunidade fluem constantemente no universo, mas o agir criativo depende de nossa lucidez e vontade. No filme “Babe, o Porquinho Atrapalhado”, disse o porquinho à sábia cadela Fly: “Como você é rápida! Nunca vou correr como você”. A cadela respondeu: “Os porcos não são corredores, mas não é isso que importa. É a atitude”.

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