JC Criança

Política não é só para gente grande

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 3 min

Quem pensa que política é assunto só para adultos está enganado. Crianças e adolescentes também participam do discussão, debatem a crise política no universo escolar, conversam com os pais e amigos e ficam antenados com cada passo da Comissão Parlamentar de Inquérito, a famosa CPI. Diariamente, a imprensa traz novas informações sobre denúncias de corrupção que envolvem políticos, empresários e líderes de partido. “Mensalão” e CPI são palavras que invadiram o cotidiano em uma crise política que abalou a população. Adultos e crianças, cada vez mais, acompanham o processo político, que não é muito fácil de compreender.

A professora de história Sonia Mozer chama a atenção para alguns pontos para que as pessoas reflitam melhor sobre o que é a corrupção e como o cidadão deve participar desse processo histórico. Sonia avalia também a importância dos meios de comunicação, que hoje estão mais desenvolvidos: “E, mais do que isso, hoje, a mídia pode mostrar tudo o que acontece realmente”. Ela explica que antes da democracia, as informações não podiam ser transmitidas e as pessoas não sabiam o que realmente ocorria nos bastidores da política. “Significa que crescemos na democracia, pois seria uma ingenuidade de nossa parte pensar que esse tipo de corrupção é novo. É praticamente tão velho quanto o País.”

Para dar um exemplo do que está ocorrendo, Sonia Mozer diz: “Vou falar uma metáfora ao estilo do presidente Lula. Isso é como um tumor, muito antigo para ele sarar é preciso ser rasgado e purgar (purificar, limpar, expelir secreção) todo aquele pus, toda a infecção que existe nele. É um processo doloroso, provavelmente a pessoa que tem um tumor assim vai ficar com cicatrizes e a nação provavelmente ficará, mas é a única forma de sarar a doença.”

Outro ponto que a professora de história salienta é a confusão que as pessoas fazem entre o público e o privado. “A gente percebe nas administrações brasileiras – não esta em especial –, mas através da história, uma confusão entre público e privado. Entre o que é de todos e o que é particular.”

Para exemplificar, Sonia lembra de uma entrevista que o atual presidente da Câmara dos Deputados, deputado Severino Cavalcanti, deu a um jornalista, ao ser questionado sobre a contratação de seu filho para um posto no governo. “Eu ouvi a entrevista e a resposta dele foi a seguinte: ‘mas o presidente da Folha de São Paulo também faz isso!’. O deputado está confundindo o público e o privado, pois o presidente da Folha de São Paulo é dono de uma empresa particular e pode colocar ali quem ele quiser. Agora, o presidente da Câmara é um dos representantes da nação. Em ordem hierárquica, ele é o terceiro. Pela resposta, talvez seja um deslize, ele confunde. E não podemos pensar que é somente ele. Quando há a corrupção, significa que um grupo de pessoas se apossou do que é público, de verbas ou de orçamentos provenientes de impostos que pertencem a toda nação. A pessoa, como teve acesso a esse montante, essa verba, usou em benefício próprio.”

A professora sugere que esse tipo de comportamento pode fazer parte da cultura nacional. “No momento em que eu jogo papel na rua e não limpo, eu penso que a rua é a minha casa e que ali eu posso deixar sujo caso eu queira. Estou esquecendo que a rua pertence a todos e que é dever de todos cuidar dela.” Mesmo assim, Sonia é otimista, lembrando ser um processo histórico, que pode ser mudado. “No momento em que cada cidadão tomar esse cuidado, os cidadãos que forem eleitos terão também esse cuidado.”

A falta de impunidade é apontada pela professora Sonia como o terceiro fator a colaborar com a corrupção no País. Para ela, apesar de haver uma cultura de apropriação do que não lhe pertence, o que mais atrapalha é as pessoas não serem punidas por seus atos. “Todas as vezes que alguma infração ou algum crime deixa de ser punido, incentiva que se faça novamente.” Para finalizar, a professora avalia o processo como doloroso, mas de alguma forma positivo. “Tudo isso possibilita a reflexão.”

Comentários

Comentários