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20% dos abortos são de adolescentes

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Levantamento realizado junto à Maternidade Santa Isabel de Bauru mostra que pelo menos 20% dos casos de abortamento atendidos pela instituição ocorrem com adolescentes. O mais alarmante é que boa parte dessas jovens só descobre a gravidez depois de perder o bebê, o que aumenta ainda mais o sofrimento.

Os dados são da pesquisadora Leila Maria Vieira, coordenadora da Clínica de Educação para a Saúde (Ceps) da Universidade do Sagrado Coração (USC). Ela acaba de defender a tese “Abortamento na adolescência: da vida à experiência do colo vazio”.

Vieira analisou os prontuários de todas as mulheres atendidas pela maternidade entre janeiro de 2000 e dezembro de 2003. Nos quatro anos, foram atendidas 31.468 gestantes, das quais 2.286 receberam o diagnóstico de abortamento. Deste total, 459 mulheres (20%) tinham entre 10 e 19 anos.

“O que mais chama a atenção é a precocidade sexual dessas adolescentes. Tivemos abortamentos de meninas com 11 e 12 anos. E de 2000 para 2003, aumentou o número de abortamentos na faixa etária compreendida entre 10 e 14 anos”, observa.

Vieira salienta que muitas dessas adolescentes só descobrem estar grávidas no momento em que o médico informa que estão sofrendo um abortamento. “Isso mostra o grau de imaturidade delas. Elas não tiveram maturidade nem para usar ou exigir o uso de um método anticoncepcional, nem para reconher as mudanças no próprio corpo”, comenta.

Em contrapartida, a pesquisadora relata redução no número de abortamentos em jovens de 15 a 19 anos nos mesmos quatro anos estudados. “Talvez isso seja reflexo das campanhas de prevenção”, sugere.

Questionada sobre o percentual de abortamentos espontâneos e provocados, Vieira informa não ter pesquisado este item. No entanto, o levantamento aponta que o tempo médio de internação das jovens com 10 a 14 anos é de um a dois dias, enquanto nas adolescentes mais velhas ele ultrapassa os três dias.

“O tempo maior de internação indica complicação do quadro. Pode-se supor que isso tenha ocorrido pelo uso de métodos abortivos, mas como isso não foi investigado, não podemos fazer afirmações nesse sentido”, alega.

De acordo com a pesquisadora, o levantamento mostra que os casos de abortamento registrados em Bauru seguem a tendência mundial. Segundo ela, considera-se normal o abortamento em 15% a 20% dos casos em que a gravidez já está confirmada. “Esse índice pode chegar a 78% nos casos de gravidez não reconhecida (primeiros dias após a fecundação)”, acrescenta.

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Pesquisa relata sofrimento

De acordo com a pesquisadora Leila Maria Vieira, autora da tese “Abortamento na adolescência: da vida à experiência do colo vazio”, adolescentes que sofrem uma interrupção precoce da gravidez descrevem sua perda como uma enorme “dor no coração”.

“O abortamento não tem o mesmo impacto social da morte de uma criança que já brinca, anda, corre. O abortamento é uma dor solitária, que só a mãe sente. Mas se por um lado essa perda representa enorme sofrimento, por outro ela motiva um conjunto de mudanças importantes na vida dessa adolescente”, pondera.

Depois de entrevistar algumas das adolescentes que receberam diagnóstico de abortamento, Vieira identificou três fases marcantes: a de descobrir-se grávida e fértil; a de viver o abortamento e toda a dor que ele representa; e a de ter que reprogramar a própria vida para não passar novamente por isso.

“Os relatos dessas adolescentes mostram que o processo de abortamento foi permeado por sentimentos de dúvida, culpa, insegurança, medo, vergonha e até alívio. Mas elas percebem que precisam pensar sua vida sexual e passam a refletir sobre a importância de planejar a gravidez. Para a maioria delas, enfrentar o abortamento traduziu-se na necessidade de amadurecimento e mudança de comportamento”, encerra.

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