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O governo acabou


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Posso estar enganado e ser surpreendido pelo processo político, mas tudo leva a crer que o governo Lula acabou e que dificilmente o presidente poderá ser reeleito em 2006. As causas podem ser resumidas nos seguintes elementos: 1- O segundo mandato de FHC foi marcado por muitas crises internacionais que afetaram o desenvolvimento interno, causando mais dúvidas e apreensões no povo brasileiro do que as conquistas obtidas em seus dois mandatos, favorecendo uma opção oposicionista; 2- a oposição, particularmente o PT e Lula, souberam explorar as dificuldades enfrentadas pelo governo FHC naquele segundo mandato; 3- por uma questão cultural, grande parte da população brasileira acredita (ou acreditava) em salvacionistas que, em curto espaço de tempo, conseguiriam mudar não somente a situação do País como a de suas vidas; 4- Lula, por todo o seu passado, encarnava a possibilidade de mudanças sempre esperadas pelo brasileiro.

Eleito Lula e assumindo o poder o PT, a esperança de mudanças começou a ruir. Na economia, deram continuidade à política econômica de FHC, embora exagerando na dose de realismo e provocando mais danos econômicos e sociais do que seriam necessários. Para alguns, principalmente para a esquerda do PT e para aqueles que esperavam mudanças nos rumos da economia, isso significou a primeira traição. Para outros, a continuidade da política econômica do governo FHC foi o grande acerto do governo Lula. Em defesa destes últimos, os resultados da economia estariam aí para provar que o governo Lula teria acertado. Para mim, que não pertenço a um ou outro grupo, acho que o governo Lula acertou na continuidade, mas errou na dose e na falta de criatividade, e os números da economia somente não são piores porque o País encontrou uma situação internacional extremamente favorável.

Caindo José Dirceu do governo, sobrou a Lula a alternativa de recompor-se com outras forças políticas, apeando boa parte do PT do governo. Elegeu, como seus novos parceiros, uma parcela do PMDB fisiológico e, por incrível que pareça, do PP de Severino Cavalcanti. Isso não é governo, mas um amontoado de nomes, sem identidade com Lula, com o PT e com o movimento que os elegeu. E como Lula nunca comandou o governo e não tem mais o José Dirceu, a certeza que fica é a de que cada ministro e seus auxiliares atirarão cada um para o seu lado.

Dividido internamente, o PT não é nem governo e deixou de ser partido. Não é por outro motivo que falam em sua refundação. O problema é que a antiga direção, capitaneada por José Dirceu, e que está no epicentro do furacão que destruiu o governo Lula e o próprio PT, continua dando as cartas no partido. Como refundá-lo nessas condições? O PT perderá muito de sua força de outrora e que ajudou a eleger o presidente. Mais do que isso: o próprio Lula, que criou o PT e é o seu presidente de honra, agora o renega.

Dificilmente Lula deverá ser reeleito em 2006. Seguem as razões: 1- Lula terá de ser confrontado com o seu próprio governo e não com algum governo anterior; 2- a esperança de mudança não pode mais ser mais sustentada, pois além de o governo Lula não ter promovido nenhuma mudança significativa no País, a tese perde efeito quando se trata de continuidade; 3- o governo caiu na vala comum dos que se envolvem em corrupção, destruindo a aura de ética que o ajudou a se eleger; 4. não existirá mais o PT forte, coeso e disciplinado capaz de superar os obstáculos, mobilizar as consciências e criar encantos na população; 5. acabou a esdrúxula coesão das classes alta, média e baixa que ajudaram a eleger Lula; 6. com as atuais CPIs, acabarão os financiamentos de campanha que sustentaram a trajetória de Lula em direção ao poder, numa das eleições mais ricas da história do Brasil; 7. como todos os partidos lançarão candidatos, Lula, se indicado, ficará na mesma posição de José Serra em 2002, que foi criticado por todos os lados por pertencer ao governo de FHC e, somente por conta disso, ter perdido a eleição; 8. o que Lula e o PT poderão apresentar de novidade em 2006 para ganhar a eleição?

O autor, Gabriel Ferrato, é professor do Instituto de Economia da Unicamp

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