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Palmas que ele merece


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Pergunta recorrente em todos os espaços: Lula tem condições de se reeleger? Pelo menos quatro condições se impõem para que alcance essa meta: sair limpo do mar de lama aberto pelo PT; fazer o milagre de multiplicação dos pães nos 13 meses que lhe restam; recompor a base política e reconquistar as classes médias; e adquirir apetência para governar. Mas há um porém: certas condições escapam a seu controle. Vejamos.

Este segundo semestre será embalado pelo rufar de tambores das três CPIs em curso. O esforço dos presidentes das Casas congressuais não será suficiente para o encaminhamento de uma agenda positiva. Aspectos pontuais, como a questão do desarmamento, serão nuvens passageiras. Um clima pesado permanecerá no ar, misturando expectativas e interrogações. A perspectiva de cassação de parlamentares, em quantidade aceita pelos partidos, algo entre 15 e 20, não criará catarse de proporções suficientes para amansar a indignação social. Sob os escombros do PT, prevê-se nos próximos meses a administração cozinhando modesto feijão com arroz, um presidente tentando agrupar rebanhos perdidos, partidos tontos à procura de um rumo e cidadãos distanciados da classe política.

O primeiro semestre de 2006 será dedicado à reaproximação com as bases, implicando menos expediente no Planalto e mais tempo nas planícies eleitorais. Ao PT, sobretudo, restará a tarefa de Fênix de renascer das cinzas.

Aos partidos políticos, urge criar ou recriar um ideário, à luz das demandas sociais. O conceito de partidos que pegam tudo (catch-all parties, como os ingleses os chamam), vendendo-se nos subterrâneos da política, agoniza. Partidos de massa, símbolos dos carcomidos tempos da luta de classes, e que tanto inspiraram o PT, também desaparecem ante a afiada lança dos grupos organizados, que não mais esperam pelas recorrentes promessas da democracia representativa, como o combate ao poder invisível, a educação para a cidadania e a justiça para todos, que Bobbio tanto lembrava.

Menos ideologia e mais pragmatismo – eis o receituário dos novos tempos. Por essa razão, a opção por matizes de esquerda, centro e direita – cromatismo que ainda encanta os olhos de alguns neo-ideólogos da era moderna – só terá sentido se estiver conectada a estratégias para atender, no curto, médio e longo prazos, às expectativas sociais. E Lula, como entra no figurino? Como um ator populista ensaiando a volta ao palco, depois de peça não elogiada pela crítica. O ator voltará a conquistar o coração da sociedade? As condições já foram postas. Este primeiro estágio mostra que o presidente não estava preparado para governar. Liderar um sindicato, fundar um partido, ganhar a Presidência, viajar pelo Brasil, abraçar o povo, recorrer a metáforas e à origem humilde não são qualidades suficientes para comandar um país. Ademais, Lula não gosta de governar. Gosta mesmo é de discursar. E, de tanto se exercitar, desenvolveu um amor-próprio tão forte que o mundo real é coisa menor. Voltaire conta a historinha do maltrapilho de Madrid, sujeito bem moço, que pedia esmolas com grande empáfia. Um transeunte lhe disse: “Você não tem vergonha de exercer essa atividade, quando pode trabalhar?” E ele: “Meu caro, peço-lhe esmola, e não conselhos”. Por amor a si mesmo, pedia esmola e não permitia que ninguém lhe sugerisse nada. Lula não admite isso. Diz que vai continuar viajando, freqüentando palanques e azucrinando as elites.

Confia no estoque de carisma. Se não se livrar da arapuca em que o PT o colocou, Lula não ganhará festas na reta final. No começo, de esperança. No fim, de pena”. No início, a esperança venceu o medo. Palmas para o presidente petista. Do meio para o fim, a esperança está indo embora. Que pena. Palmas muito sentidas. Ele merece.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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