Ainda há muito por que lutar, mas portadores de deficiência de Bauru afirmam que muitas vitórias foram conquistadas nos últimos anos. Segundo eles, a inclusão social e uma maior atenção por parte do governo merecem ser comemoradas. Algumas dessas mudanças poderão ser vistas durante a Semana de Prevenção às Deficiências, que começa hoje, as 10h na Praça Rui Barbosa.
A coordenadora do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Comude) de Bauru, Fujika Kassai Fernandes Silva, lembra que 18 anos atrás, foi um transtorno procurar uma escola para a filha Marina.
“Ela nasceu com a síndrome de Down. Naquela época, ninguém sabia direito o que isso representava, nem entendia se esses meninos tinham condição de estar numa escola regular. Todos os portadores da síndrome eram mandados para a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais)”, comenta.
No entanto, segundo ela, muitos profissionais já diziam que a criança com Down precisava ter exemplos ditos normais e, para isso, era importante conviver com outras crianças sem a síndrome.
“Hoje eu vejo um grande avanço nesse sentido. De lá para cá, muitas escolas particulares, municipais e estaduais já têm prestam esse atendimento. Claro que o portador da síndrome precisa de acompanhamento especial, tem que ter professor particular e outras atividades, mas é muito importante que eles tenham colegas para crescer junto”, defende.
“Sem sombra de dúvida, a qualidade de vida melhorou muito para os portadores de deficiência de dez anos para cá”, concorda Francisco Takao Kajino, que é cadeirante. Na opinião dele, a Constituição de 1988 foi uma importante alavanca nesse sentido.
“Ela deu um poder mais equilibrado para o Ministério Público estadual e federal. Hoje, se você precisa de uma cadeira de rodas, de medicamentos, você entra com uma ação junto ao Ministério Público. É trabalhoso, mas você consegue. Aliás, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem custeado muitas coisas para nós”, afirma.
Para Kajino, a legislação avançou muito em benefício aos portadores de deficiência nos últimos anos. “Hoje a prefeitura não aprova um projeto de construção para serviço público se ele não estiver previsto um banheiro adaptado e rampas de acesso ao cadeirante”, destaca.
Também melhorou a inclusão no mercado de trabalho. Gerente de recursos humanos, Linorácio Tavares coordena um programa de responsabilidade social numa empresa de Bauru. “Nós atuamos em vários programas e um deles é a contratação de portadores de deficiência. Temos dois atualmente e a intenção é contratar mais dois até setembro”, informa.
Um dos contratados é o auxiliar de limpeza Antônio Carlos dos Santos, 34 anos. Com os movimentos do lado esquerdo do corpo prejudicados pela paralisia infantil, ele conta que estava difícil arrumar emprego. “Esse emprego tem sido ótimo para mim, tenho aprendido coisas que não sabia, estou conquistando pouco a pouco meus objetivos. Foi uma grande conquista, com muita luta”, alega.
Outra vitória citada pelos representantes do Comude é o transporte público, que hoje dispõe de ônibus adaptados com elevadores e vans especiais que vão buscar e levar os deficientes em casa, conforme agendamento prévio. Hoje, na Praça Rui Barbosa, estarão expostos veículos adaptados do transporte coletivo a e Unidade Móvel de Saúde Auditiva da Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais (Funcraf).
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Driblando o preconceito
Apesar de todas as conquistas relatadas nos últimos anos, portadores de deficiência ainda têm de driblar o preconceito da sociedade. Para Francisco Takao Kajino, esta é uma batalha que não tem fim.
“Eu acho que acabar com o preconceito é uma utopia. Ele é parceiro do ser humano. Temos preconceito em relação a tudo. Muito antes de sofrer o acidente (que o deixou tetraplégico, durante uma luta marcial), eu já sofria preconceito na escola porque entrei falando japonês e não entendia o que a professora ensinava”, exemplifica.
Segundo ele, as pessoas se aproveitam de qualquer característica marcante para fazer chacota e é preciso saber lidar com isso. “O preconceito aparece muito na forma de gozação. A gente pode brigar ou agüentar. Já briguei bastante, hoje levo na brincadeira”, sugere.
Na opinião de Fujika Kassai Fernandes Silva, a quebra de barreiras e preconceitos deve começar dentro de casa. Ela lembra que muitas famílias escondem o portador de deficiência, deixando-o em casa ou em instituições.
“No caso da minha filha (portadora da síndrome de Down), entendemos que ela faria parte da sociedade dita normal, então ela vai ao mercado, ao cinema, ao shopping. Mas isso não é muito comum, você não os vê nas ruas. Então, acho que depende das famílias ir quebrando essas barreiras”, enfatiza.