O futebol é uma unanimidade nacional. Cada vez mais informados, os torcedores reconhecem o trabalho dos jogadores e treinadores, atividade divulgada com destaque pelos meios de comunicação. Na opinião do ator e diretor teatral Ney Piacentini, 44 anos, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro (CPT), a lógica deveria ser a mesma para o cenário cultural brasileiro.
Para ele, as crianças deveriam ser estimuladas a estudar teatro, música, cinema e artes plásticas na escola. “Quanto mais se conhece as regras de um jogo, mais prazer se tem em assisti-lo”, diz, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade.
No elenco da Companhia do Latão, o ator esteve em Bauru entre os dias 11 e 14 deste mês apresentando as peças “Auto dos Bons Tratos”, “Equívocos Colecionados”, “Visões Siamesas” e “Mercado do Gozo” no Serviço Social do Comércio (Sesc) e Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves, durante programação dos 109 anos da cidade.
Utilizando uma linguagem épica e dialética, o grupo busca discutir aspectos da realidade política e social brasileira por meio dos espetáculos, característica que se sobressai na carreira de Ney. Nascido em Campo Mourão, Paraná, ele - que é pai do estudante de jornalismo Ebano, de 23 anos - começou a atuar na década de 70, em um grupo de teatro da Universidade Federal de Santa Catarina. Nessa época, se engajou no movimento estudantil e, desde então, concilia seu trabalho nos palcos e também na TV e no cinema à “militância” no meio cultural.
Além de presidente da CPT (órgão existente há 25 anos e que abriga cerca de 80% da produção teatral de São Paulo, com aproximadamente 2.500 sócios e 600 grupos teatrais), Ney é vice-presidente do Conselho Municipal de Cultura e representante paulista na Câmara Setorial.
Embora seja reconhecido nas ruas como apresentador dos programas infantis “Revistinha” e “Rá-Tim-Bum”, exibidos na TV Cultura na década de 90, o ator possui diversos trabalhos no teatro e no cinema. Entre eles, atuações nos filmes “Eu Sei Que Você Sabe” (1995), “Modernismo: Os Anos 20” (1992) ou os recentes “O Quanto Vale ou É Por Quilo” e “O Fim da Linha”.
A trajetória de Ney e sua luta pela popularização e acesso à cultura no Brasil é tema da entrevista a seguir.
Jornal da Cidade - A CPT existe há 25 anos e reúne cerca de 80% da produção teatral da metrópole. A classe teatral é unida?
Ney Piacentini - Ainda não se pode dizer isso. É uma classe tentando se organizar porque, como dizem alguns historiadores, o Brasil passou por dois períodos de democracia, um que durou 18 anos, na época da Ditadura Vargas, e outro há 17 anos, desde a primeira reeleição direta. A conjuntura atinge as pessoas diretamente. Os indivíduos perderam a noção de participação, cidadania e coletivo. A década de 80 foi pautada pelo individualismo. Nós somos de uma geração que nasceu sobre a alcunha do individualismo. Para se transformar isso culturalmente, mostrar para as pessoas que juntos somos mais fortes do que separadamente, é um processo cultural que leva tempo para se reverter. Numa indústria cultural como a nossa, que nos bombardeia dia e noite com valores individualistas, capitalistas e consumistas, é difícil criar uma cultura de organização coletiva. Nós tratamos disso politicamente, no movimento “Arte Contra a Barbárie”, de onde surgiu toda essa nova politização do meio teatral.
JC - No último dia 11, diversos artistas protestaram em São Paulo, incluindo membros da CPT. O que a classe reivindica?
Ney - O Ministério da Cultura (MinC) tinha uma dotação orçamentária de 0,34%, que é muito pequena dentro do Orçamento Geral da União. O mínimo recomendado pela Unesco é de 2% para os países, estados e municípios. Além de ser baixo, nesse ano, o Orçamento sofreu um corte que reduziu essa dotação a 0,19%, o que é muito pouco, menos do que a prefeitura de São Paulo e do Rio de Janeiro tem para a área cultural. Com isso, nós temos notícia de mais de 70 projetos que poderiam estar sendo executados e foram suspensos. Isso é praticamente a paralisia da cultura na esfera federal. As atividades que estão acontecendo, como o Projeto Pixinguinha, são realizadas pelo patrocínio da Petrobras. Nosso protesto é em relação a um governo que se apresentou como progressista e democrático e contou com apoio da área cultural e artística por décadas. No primeiro ano o ministério parou para se reestruturar, no segundo ano para consultar a sociedade sobre qual seria a forma de lançar programas. No terceiro ano de governo, a cúpula econômica cortou o orçamento de todos os ministérios, incluiu o da Cultura, que não poderia ter sido incluído porque é muito pequeno e com isso parou a atividade cultural na esfera federal. Por isso é que fomos às ruas. Estamos colhendo abaixo-assinados no Brasil inteiro e vamos à Brasília. Enquanto o ministro do Planejamento não liberar o mínimo que a Cultura tem direito não vamos parar de gritar.
JC - O senhor acha que a atual crise política pode atrasar ainda mais a liberação desses recursos?
Ney - Isso já estava atrasado. Esse dinheiro foi contigenciado (cortado) em março e abril. O Brasil está sempre em crise. Agora é essa crise, amanhã é outra. E se a área da cultura for depender de céu de brigadeiro e mar de almirante, nada vai acontecer porque sempre estamos vivendo um período de turbulência, política, econômica, pressão externa e mercado. Sempre há um fantasma impedindo que a realidade avance. E nós não podemos depender disso. Do nosso ponto de vista, o governo tem a obrigação de lançar os programas, entre eles o de artes cênicas, que já estavam desenhados e haviam sido apresentados publicamente em uma reunião feita no Rio de Janeiro em março, dentro da sede do MinC. Em termos práticos, não é o que está acontecendo.
JC - O senhor foi eleito para representar São Paulo na Câmara Setorial. Como analisa o cenário artístico do Estado?
Ney - Na questão governamental, o Estado de São Paulo peca porque não tem uma política cultural definida e delineada. Em virtude dessa ausência governamental na área da cultura, fizemos um amplo movimento para criação do Fundo Estadual de Arte e Cultura. O Estado inteiro se mobilizou, houve mais de 30 entidades envolvidas. Várias caravanas do Interior foram à Assembléia Legislativa na época do processo, só que o Governo, através do governador e do atual secretário de Cultura, João Batista de Andrade, não concorda com essa proposta da sociedade civil. Não concorda com essa idéia de política pública e cultural e promete apresentar um projeto substituto. Houve um debate bastante acirrado dentro da Assembléia Legislativa em maio e junho, até que o governo e o secretário pediram um tempo para apresentar uma proposta para um projeto de lei de política cultural no Estado de São Paulo. A idéia do secretário é mesclar incentivo cultural através da renúncia fiscal do IMCS e fundos públicos aplicados diretamente da área da cultura. Ele vai tentar fazer uma coisa mista, tentar juntar uma visão política, que é privacionista e com incentivo fiscal, porque fica nas mãos da iniciativa privada a escolha da produção; e o fundo público, no qual o Estado tem a obrigação de estabelecer linhas de ação e executá-las com recurso público direto. Esse é o panorama atual.
JC - Qual sua avaliação sobre os programas extraordinários lançados pelo governo, como o de Fomento às Artes Cênicas (teatro, dança e circo)?
Ney - Emergencialmente, o governo tem lançado programas. Lançou esse Programa Extraordinário de Fomento ao Cinema ano passado, da ordem de R$ 6 milhões, que vem financiando alguns filmes. O Fundo Estadual de Arte e Cultura é uma meta a médio prazo. A lei que o João Batista de Andrade vai propor em oposição ao fundo também é uma meta a médio prazo, só que nós ficamos, às vezes, com a corda no pescoço. Como as artes cênicas ficaram três anos sem nenhum programa público, nós propusemos os programas públicos a eles, por exemplo, a Caravana de Teatro, projeto que o Estado já vem fazendo ao longo dos anos, mas sazonalmente, dependendo da boa vontade dos governantes. Mas como o próprio nome diz, são programas extraordinários, e eu espero que esses programas virem ordinários, que sejam lançados todo ano, dentro de um guarda-chuva maior de política pública, porque só se desenvolvem as coisas com continuidade.
JC - Nesse panorama, como as ações na área cultural se realizam?
Ney - Acabam acontecendo porque a cultura não pára. Independente do apoio dos governos e Estados, ela não pára. A força e a vitalidade da cultura não vão ficar dependendo da boa vontade dos governantes e de leis que não se estabelecem. Mas acontecem de um jeito precário, com pouca organização, por instinto de sobrevivência.
JC - Isso se deve à grande demanda cultural do Brasil?
Ney - Não é só a demanda do meio cultural, dos artistas e produtores, mas da sede que a população tem de se ver espelhada por meio da produção cultural. Quando se fala, tanto em nível federal, estadual ou municipal, em programas de interesse público para a cultura, o objetivo nunca deve ser o de apoiar artistas e produtores. O objetivo é a população. A cultura é um direito, como a educação, saúde, transporte e moradia. Ela está no Direito Universal do Homem, na Constituição Brasileira e nas leis orgânicas estaduais e municipais. Ela é um direito, só não está regulamentada. O nível de uma população se mede pelo grau de instrução, assistência à saúde, acesso à moradia e ao transporte e acesso à cultura. São esses índices que dizem qual é o grau de evolução de uma população. A cultura é uma viga mestra na construção da cidadania. Por isso não tem o que discutir. Estamos atrasados. Precisamos fazer nossas leis, programas e colocar as crianças para ver teatro, artes plásticas, ter acesso à música desde o colégio. Assim, quando elas estiveram jovens, poderão se engajar em algum movimento artístico ou atividade produtiva que possa gerar motivação existencial para que essa população evolua como cidadão, na área socioeconômica e política, e como seres humanos, espiritual e intelectualmente.
JC - O senhor acredita que o nível de interesse por parte da população se mede pela demanda de projetos e ações culturais?
Ney - Sem dúvida. Se oferecemos bons trabalhos e qualidade, a população vai assistir. Ela terá parâmetros para comparar essas manifestações com o que ela vê todos os dias na televisão. Por exemplo o futebol, que é uma unanimidade nacional: por que as pessoas têm tantas opiniões e reconhecem quando o jogador é bom ou ruim e o quê o treinador está fazendo? Por que desde criança se conhece as regras e o funcionamento do futebol. Lê-se nos jornais, divulga-se e fala-se nisso o tempo todo. Se colocarmos o teatro na escola, se a criança assistir peças e no colégio começar a estudar os autores e ver como o teatro funciona, mais prazer vai ter em assisti-lo. Quanto mais se conhece as regras de um jogo, maior o interesse por ele. A lógica é sempre a mesma.
JC - Por que a cultura é um elemento pouco disponibilizado à população brasileira?
Ney - A cultura gera massa crítica, ela é conscientizadora, tem a função de fazer com que o ser humano veja a realidade com mais clareza, por mais abstrata que seja uma arte. Ao se bloquear a evolução cultural, se tem um processo de manipulação maior. Um povo na ignorância é mais facilmente dominado. A televisão, por exemplo, sofre de um acachapamento intelectual, ela é de baixa voltagem.
JC - Em que sentido trabalhar na TV Cultura, em programas como o “Revistinha” e “Rá-Tim-Bum”, enriqueceu seu trabalho?
Ney - Em primeiro lugar, é dignificante. Há um retorno e até hoje as pessoas me abordam nas ruas por isso. Naquela época, o programa de televisão para a infância e juventude era a Xuxa, e nós éramos seu antídoto. Então a gente encontrava nas ruas inúmeros pais que diziam: “Vocês não sabem a importância desse trabalho porque não queremos que nossos filhos vejam um programa que os incentive ao consumo”. Nosso programa estimulava o conhecimento, a ludicidade e a criatividade.
JC - O senhor falou que antigamente as crianças tinham a Xuxa como parâmetro. Hoje, os videogames e a cybercultura invadem o mundo infantil. Quais alternativas esse público tem para vivenciar um aprendizado criativo?
Ney - O bom teatro feito para a infância e juventude é um antídoto. A criança que tem acesso a espetáculos de qualidade e criativos e que fujam dessa lógica imediatista, de estímulo visual permanente, terá um outro ponto de vista. A sensibilidade será trocada por uma outra instância, outra maneira de se colocar as coisas. É uma das armas, mas se alguém me perguntar quem é que vence nessa luta do gigante e da pulga... é óbvio que nós somos as pulgas, tentando incomodar o gigante. Estamos longe de vencer, mas essa inquietude nós temos de ter.
JC - Temas políticos e sociais pautam as produções da Companhia do Latão. Por quê?
Ney - Falamos da dificuldade de se agregar, de nos unirmos uns aos outros, de tirarmos plataformas comuns e conjuntas, e mais, de levarmos isso adiante. Nós participamos de inúmeros programas de formação de público, mas a cooperativa também luta para que as escolas públicas tenham acesso ao teatro, para que as comunidades periféricas e pessoas de baixa renda tenham acesso às peças. Nesse aspecto a Companhia do Latão é engajada, é um traço particular, que é o vínculo com o Movimento Social dos Trabalhadores (MST).
Mas, no geral, às vezes temos iniciativas e ou conseguimos algumas vitórias, mas o imediatismo fala mais alto. O estômago vem à frente do intelecto, ou seja, ainda pensamos em sair do sufoco para comer algo amanhã, enquanto os governos nos apontam com migalhas. As pessoas voam em direção às migalhas, dão conta do estômago por um dia e no dia seguinte estão desagregadas. Elas vão voltar a se unir quando tiverem para morrer.