Cultura

Folclore precisa ser redesenhado

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

No Dia do Folclore, comemorado hoje, a cientista social Sandra Macedo Pereira propõe uma reflexão sobre o que é folclore brasileiro hoje e faz um alerta: é preciso redescobrir as manifestações folclóricas de nossa região e do País. Olhar para trás e preservar tradições como a Folia de Reis e a Catira é importante, mas, na opinião de Sandra, é preciso valorizar o presente e seu folclore.

“As pessoas não conseguem enxergar o folclore porque existe uma falta de interesse em apresentá-lo de fato como ele é”, afirma a cientista social, que também é assistente social, professora e secretária da Yauarête Centro de Cultura, Arte e Educação.

Confira a seguir trechos da entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

JC - Afinal, o que é folclore?

Sandra Macedo Pereira - Enquanto conceito, é uma ciência que estuda todas as manifestações do saber popular conservadas oralmente e consagradas pela sua popularidade. A filósofa Marilena Chauí, por exemplo, fala do folclore de uma maneira bastante abrangente. Ela fala que o folclore refere-se à cultura que não simplesmente pertence ao povo, mas a tudo o que é produzido por ele porque o povo tem uma forma própria de ver e interpretar o mundo que o cerca. É maravilhosa a maneira como ela coloca. Mesmo assim, não dá para saber direito o que é o folclore. Mas ele é indispensável para o conhecimento social porque está presente em tudo, embora a gente não consiga enxergá-lo. A maneira como você recebe uma pessoa na sua residência é um fato folclórico. Isso existe na arte, na linguagem, na literatura, nas músicas, no teatro, nas artes plásticas, na dança, nas manifestações de religiosidade. Ele está presente em tudo - na religiosidade, por exemplo. Um casamento é um ritual folclórico. Um batizado é um ritual folclórico.

JC - De modo geral, as pessoas não vêem folclore dessa forma, não?

Sandra - Você consegue enxergar o folclore mais na parte de trajes, de ofícios e técnicas artesanais, na parte da alimentação - quando se reporta ao vatapá da Bahia, ao acarajé, às comidas e temperos típicos, bebidas, chás. Isso a gente lembra muito mais facilmente - trajes gaúchos, roupas baianas, trajes de dança, como do maracatu, do frevo. É tão amplo que fica muito difícil de falar. Mas o fato é considerado realmente folclórico quando é anônimo, não tem autor conhecido. Essa é a característica principal do fato folclórico: a transmissão oral, que se faz de pessoa para pessoa, da popularidade, quando é do domínio de toda uma coletividade e quando ele é funcional. O povo nada realiza sem um motivo. Tudo tem uma razão. O povo canta para rezar, para adormecer as crianças. As danças, por exemplo, as congadas, têm um destino certo e aparecem na Festa do Divino, de São Benedito. A Folia de Reis aparece no meio do Natal e do Ano Novo. Já as festas juninas, são para os santos católicos. Tudo é funcional.

JC - Por que geralmente relacionamos folclore a tradição?

Sandra - Com a modernidade, o dia-a-dia em que todo mundo se preocupa mais em ter, esquecendo o ser, o folclore foi de uma certa maneira esquecido e é visto até de maneira pejorativa, como uma coisa sem importância. Acho que isso deve-se a não haver um trabalho para explicar o folclore como ele é, explicar que folclore não necessariamente é uma coisa distante.

JC - Como a senhora avalia o cenário do folclore em Bauru?

Sandra - Em Bauru, o folclore aparece mais através da dança - da Folia de Reis e da Catira - e fica praticamente parado nisso. As pessoas não conseguem enxergar o folclore porque existe uma falta de interesse em apresentá-lo de fato como ele é. Acredito que o folclore precisa ser redesenhado, redefinido, porque não adianta se prender somente àquele folclore dos anos 20 ou de antes, de 1800, 1700. Não se pode retroceder. É preciso criar alternativas para que ele apareça. Eu acredito que está faltando uma releitura do folclore. Por exemplo, no Japão, eles conservam muito as tradições deles. Eles têm a tecnologia, mas ao mesmo tempo as tradições, que eles conseguiram preservar e às quais deram roupagem nova. É preciso de uma releitura em cima do que já existe.

JC - Na sua opinião, é importante comemorar o Dia do Folclore?

Sandra - É importante comemorar. Mas é importante também não se prender a datas e não lembrar do folclore somente neste dia.

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Data

O Dia do Folclore foi criado pelo arqueólogo inglês Willian John Toms em 22 de agosto de 1846. A palavra surgiu a partir da combinações de dois vocábulos anglo-saxônicos antigos - folk, que significa povo, e lore, que pode ser traduzido como conhecimento ou ciência: Folk-lore.

No Brasil, inicialmente a palavra foi usada dessa forma. A supressão do hífen e a substituição da letra ‘k’ pela letra ‘c’ veio em 1943, com a reforma ortográfica que eliminou a letra ‘k’ do alfabeto brasileiro.

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