Milhões de brasileiros e 59% dos 350 mil moradores de Bauru consomem diariamente água do aqüífero Guarani e não têm idéia do que isso representa em um planeta que conta com apenas 2,5% de água doce, sendo que a maior parte não está disponível, pois concentra-se em calotas polares e geleiras (68,9%). Pior, a maioria desconhece a existência de águas subterrâneas e sua representatividade no cenário mundial, onde a água doce disponível em rios e lagos representa apenas 0,3% e as águas subterrâneas 29,9%. O restante está em pântanos, umidade de solo e solos congelados, com 0,9%.
A pequena quantidade de água doce disponível é proporcional à grande quantidade do líquido que está contaminado e que hoje representa milhões de dólares para a recuperação. Com a escassez de água limpa na superfície, a água subterrânea tem sido utilizada inclusive no Brasil, país que lidera, com 8.233,00Km3/ano, o ranking dos países mais ricos em recursos hídricos renováveis.
Mas alguns dos principais agravantes do uso indiscriminado dos recursos subterrâneos é a contaminação desses reservatórios e a impermeabilização do solo em áreas de recarga. “Há muitos poços clandestinos.
Em Bauru são mais de três mil perfurações no aqüífero. Existem poços antigos, desativados, que nem sempre são lacrados corretamente, além do risco de contaminação por agrotóxicos, que na superfície podem ser consumidos por microorganismos, mas no subsolo, nãoâ€, enfatiza o ambientalista e vereador de Bauru Rodrigo Agostinho (PMDB).
O Guarani é considerado o maior aqüífero transfronteiriço do planeta, localizado no subsolo do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai em uma extensão de 1,2 milhão Km2. O aqüífero Guarani tem sido o personagem principal de debates entre pesquisadores, ambientalistas e governos preocupados com a gestão da água doce.
“O Estado de São Paulo já tem mais de um milhão de poços no aqüífero.†As palavras do professor José Galizia Tundisi, doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) na área de recursos hídricos, colocaram em alerta os participantes do “Seminário Aqüífero Guarani – manejo sustentável e controle socialâ€, realizado nos dias 18 e 19 deste mês, em Brotas, pela Centrovias e a organização não governamental Movimento Rio Vivo.
A idéia do fim dos estoques de água doce, paralela ao crescimento das populações e desenvolvimento industrial, tem exigido ações mais efetivas dos governos e mesmo da sociedade, que começa a se conscientizar dos problemas do planeta, que certamente irão refletir nos destinos das gerações futuras.
Uma das discussões que permeiam o assunto aqüífero Guarani é se este grande manancial subterrâneo deve ser usado de forma controlada ou se seus recursos hídricos devam ser protegidos para o futuro. Porém, a realidade aponta para problemas mais pontuais, como a contaminação do aqüífero em algumas regiões, onde é bastante explorado, e a falta de uma política específica para a gestão compartilhada, inclusive com a participação de pesquisadores e sociedade.
Em uma ação integrada entre os quatro países que também fazem parte do Mercosul, desde 2000 tem sido executado o projeto “Aqüífero Guaraniâ€, que pretende, até março de 2007, definir uma política de gerenciamento do Sistema Aqüífero Guarani (SAG).
“Apesar das águas subterrâneas serem de domínio estadual, é necessário integrar as ações no que se refere ao aqüífero Guarani, pois ele é transfronteriço. Ainda existem poucas informações sobre o assunto, mas é necesssário o desenvolvimento de uma consciência nacionalâ€, acrescentou o engenheiro civil especialista em recursos hídricos Julio Thadeu Silva Kettelhut, diretor de Projetos e Articulação da Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, durante o seminário.
Origem do nome
O termo Guarani foi sugerido pelo geólogo uruguaio Danilo Antón em uma conversa informal com os colegas Jorge Montaño Xavier e Ernani Francisco da Rosa Filho, geólogos da Universidad de la Republica do Uruguai e Universidade Federal do Paraná, respectivamente, em reuniões que aconteceram em Montevidéu, em 1994, e aprovado com o respaldo dos quatro países em uma reunião em Curitiba (PR), em maio de 1996.
O objetivo foi unificar a nomenclatura das formações geológicas que formam o aqüífero e que recebem nomes diferente nos quatro países do Mercosul (Pirambóia/Botucatu, no Brasil; Misiones, no Paraguai; Tucuarembó, na Argentina e Buena Vista/Tucuarembó, no Uruguai) e, simultaneamente, prestar homenagem às comunidades indígenas que habitavam a região.
Fonte: “Aqüífero Guaraniâ€, 2004, Nadia Rita Borguetti Boscardin e autores.