Geral

No ar, Águia é máquina contra crime

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 9 min

Desde outubro do ano passado, uma máquina avaliada em US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 3,7 milhões) circula pelos céus de Bauru e região no combate à criminalidade. É o helicóptero Águia da Base de Radiopatrulha Aérea da Região de Bauru. Em pouco mais de dez meses de atuação, a aeronave já acumulou 265 horas de vôo, responsáveis por 486 missões.

Em terra, a população se acostumou a ver nos céus de Bauru o helicóptero pintado nas cores vermelho, preto e branco, sinal de que a equipe comandada pelo tenente Hilário de Oliveira Leão está em missão de combate à criminalidade. Do alto, o campo de observação vislumbrado pelo Águia permite apoio preciso às unidades que estão em terra.

Ao completar um ano de atuação em outubro, a equipe da Base de Radiopatrulha Aérea de Bauru e Região, composta por cinco oficiais e 16 praças, deverá ganhar um reforço: um avião que atuará no transporte de tropas, órgãos e no apoio às missões da Polícia Florestal. Com mais de uma década de experiência a bordo dos helicópteros Águia, tenente Hilário de Oliveira Leão recebeu o Jornal da Cidade para a seguinte entrevista.

Jornal da Cidade - A Base de Radiopatrulha Aérea da Região de Bauru vai completar um ano de operações em outubro. Qual é a avaliação que o senhor faz deste primeiro ano de atuação?

Tenente Hilário de Oliveira Leão - É muito positiva. Isso não sou eu que digo, são os dados do Comando do Policiamento do Interior, o CPI-4. Houve uma redução na incidência de crimes na região onde ocorre o patrulhamento aéreo, que apóia as operações policiais. O efeito da máquina em Bauru é muito positivo.

JC - O apoio aéreo às tarefas da Polícia Militar é um componente relativamente novo às operações. Quais são as vantagens que um helicóptero e sua equipe oferecem às missões em solo?

Leão - Na parte policial, a grande vantagem é que você tem uma plataforma de observação, com uma visão de tudo o que está acontecendo lá embaixo. Essas informações são essenciais para uma operação precisa e eficiente. No caso de uma rebelião, se tem informações de pessoas que estão fugindo pelo fundo do presídio ou ameaçando outros detentos. Esses dados são essenciais para que possa ser feita uma ação imediata e bem localizada. A plataforma de observação do helicóptero é excelente. Pode-se ter qualquer tipo de altura. A dimensão da velocidade é controlada na aeronave. As informações passadas para quem está no teatro das operações da ocorrência são precisas. Também trabalhamos em conjunto com o Corpo de Bombeiros. Recentemente, tivemos o episódio do Confiança Max, no qual a nossa máquina foi usada para ajudar a apagar o incêndio. O helicóptero é muito versátil. Ele é utilizado tanto na parte policial quanto nas missões de salvamento e resgate.

JC - Nesses mais de dez meses de atuação, qual o número de missões que foram realizadas?

Leão - No total, registramos 486 missões que renderam 265 horas de vôo. Localizamos 16 veículos, foram apreendidas 23 armas, 92 pessoas foram detidas e uma foi salva. Apoiamos missões das polícias Federal, Rodoviária, Florestal, Militar e Civil. Me lembro de uma operação da Polícia Federal, que fez uma blitz num local onde se encontravam alguns elementos com grande porte de entorpecentes. Eles conseguiram escapar da blitz e conseguimos localizá-los próximo a Pederneiras, onde foi feito o cerco e a detenção. Foram apreendidos 13 quilos de maconha.

JC - O senhor é oficial com experiência de atuação em São Paulo. Guardadas as devidas proporções, o cumprimento de missões numa cidade como Bauru é mais tranqüilo?

Leão - Eu acredito que aqui no Interior há mais organização. A mobilização de policiais é mais fácil. Em São Paulo, até pelo fato de ser uma metrópole, há vários batalhões com divisas próximas. É complicado coordenar a parte operacional. Em Bauru, é mais fácil porque há um batalhão coordenando. A mobilização é mais rápida e o efeito das operações é mais positivo. Na Capital, é comum o meliante atuar na região sul e depois, devido ao grande número de saídas, alcançar a zona norte, onde há um outro batalhão que não está informado sobre a ocorrência. Há, ainda, o tráfego aéreo intenso, que acaba prejudicando a mobilidade da aeronave. A atuação em São Paulo é mais complexa.

JC - Não é segredo para ninguém que um policial, militar ou civil, está sob constante pressão e estresse. Qual é a diferença de atuar no solo ou no ar? O fato de estar numa aeronave diminui a adrenalina?

Leão - Eu acredito que seja mais ou menos a mesma coisa. A diferença é que estando lá em cima você se estressa porque quer atuar e, muitas vezes, não dá. É preciso passar as informações, deixar a ansiedade de querer fazer um procedimento para que o pessoal em terra execute o serviço. Há casos em que fazemos cercos e estamos visualizando o suspeito. Passamos as informações e, devagarzinho, o cerco se fecha e é efetuada a prisão. Mas de fato você fica ansioso em querer ajudar e proteger o policial que está em terra.

JC - O patrulhamento aéreo é uma novidade para os policiais que atuam em Bauru e região. Foi necessário treinamentos para integrar o trabalho de quem está no ar com o pessoal de solo?

Leão - Nós fizemos palestras com todo o efetivo da região de Bauru. O comandante do CPI-4 determinou que os policiais fizessem um estágio conosco. Passamos, então, as orientações necessárias para que a aeronave fosse usada com toda eficiência. A informação tem de chegar adequada para que a operação tenha êxito. É preciso saber, por exemplo, orientar a equipe do Águia para enviar a aeronave a um determinado lugar. Essas informações foram repassadas a todos os policiais.

JC - O sucesso de uma missão do Águia está estritamente ligado ao bom desempenho da equipe. A aeronave, no entanto, possui equipamentos de ponta. A tecnologia permitiu um salto de qualidade no cumprimento das tarefas policiais?

Leão - O ‘esquilo’ tem um farol de busca que facilita o trabalho nas missões noturnas. Constantamente somos solicitados a dar apoio em locais escuros, como matas e pastagens. Os meliantes adentram a esses locais e a aeronave faz o sobrevôo com toda a iluminação. Há um outro equipamento, que ainda não dispomos no momento, que produz raio infravermelho. Ele detecta caloria. Se um gato estiver caminhando no meio do pasto, vamos detectar. Temos também um GPS (equipamento de localização), que facilita nossa navegação e nos permite chegar mais rápido ao sítio de operações. Há, ainda, os equipamentos para salvamentos em enchentes, combate a incêndios, cordas para rapel e gancho para transporte de pequenos veículos, como um triciclo e até mesmo uma maca.

JC - Desde que passou a ser visto nos céus de Bauru, o Águia sinaliza que alguma operação policial está ocorrendo. É isso mesmo? Helicóptero no ar significa missão em andamento?

Leão - Eventualmente. A operação pode ser preventiva, como vôos de fotografia, feito com o pessoal da polícia reservada, ou missões policiais. Ocasionalmente, há uma ou outra operação policial desencadeada em um ou outro local. E existem as ocorrências de fato. Portanto, o vôo do Águia pode desencadear várias hipóteses.

JC - É possível afirmar que os policiais a bordo da aeronave estão mais seguros em relação àqueles que se encontram no solo? O helicóptero pode ser atingido por um tiro disparado da terra?

Leão - Sem dúvida. Mas somos treinados para dificultar qualquer ação que torne a aeronave um alvo. Até porque temos o pessoal atento para as visualizações. Nas ocorrências, sempre estamos de olho para verificar se há possibilidade de alguém fazer algum disparo.

JC - A equipe da Radiopatrulha Aérea levanta vôo armada para as missões?

Leão - Todos os policiais estão armados. Contamos com fuzis e metralhadoras. Se for preciso, podemos revidar no caso de uma injusta agressão. É lógico que evitamos ao máximo o uso das armas, mas se detectado risco para a aeronave e para a equipe vamos disparar.

JC - A Base de Patrulhamento Aéreo da qual o senhor é comandante é responsável pela cobertura de 95 municípios. É, portanto, uma grande área. Existe a possibilidade de um algum reforço em termos de aeronaves?

Leão - O coronel Daniel Rodrigueiro (comandante do CPI-4) tem se esforçado para a aquisição de uma outra aeronave, mas de asa fixa (avião). Creio que, futuramente, teremos notícia. Como Bauru e região é ponto estratégico, uma aeronave de asa fixa iria facilitar muito nossa atuação no transporte de órgãos, de tropas para ocorrências mais distantes e também para o policiamento ambiental. A aeronave de asa fixa chega a menos de um terço do valor de hora/vôo comparada com um helicóptero. E isso permitirá que o Águia fique à disposição das operações policiais. Temos, em São Paulo, cinco aviões, mas não sei dizer com qual modelo vamos ser contemplados.

JC - Quais são as fases que um policial deve cumprir para chegar a oficial co-piloto ou piloto na Base de Radiopatrulha Aérea da Polícia Militar?

Leão - Para trabalhar na Radiopatrulha Aérea tem de, obrigatoriamente, estar no quadro da Polícia Militar, ter no mínimo dois anos de patrulhamento na rua, além de prestar um concurso interno. A partir do momento que o selecionado é transferido para a Escola do Grupamento Aéreo, inicia-se o treinamento de pilotagem e de comandante de operações. Gradativamente, há evoluções na parte profissional com relação à aeronave. São cumpridos estágios até o dia em que ele estiver em condições de comandar uma aeronave. Após um conselho de vôo, composto pelos pilotos do Grupamento Aéreo, ele poderá assumir, definitivamente, o comando da aeronave. Do início da formação até a liberação para o comando da aeronave leva-se um tempo de quatro a cinco anos.

JC - Com a inauguração do novo aeroporto de Bauru, existe alguma possibilidade da Base da Radiopatrulha Aérea deixar as instalações construídas no Aeroclube da cidade?

Leão - Não. Até porque aqui estamos mais próximos dos sítios de operações. Estrategicamente, o local onde nos encontramos é o preferível. Não creio que possa ocorrer qualquer tipo de modificação nesse sentido. O helicóptero tem de dar um tempo-resposta rápido até o local da missão para que possa ser efetivamente utilizado. Se a aeronave demorar muito, vai comprometer o flagrante da ocorrência.

JC - O senhor só pode levantar vôo após a manifestação do controle do CPI-4 ou há autonomia para essa decisão?

Leão - Temos a nossa central de operações. Todas as ocorrências de grande porte, de alto risco, passadas pelo Copom (Central de Operações), estão sendo monitoradas, fora os rádios das companhias e batalhões que também estamos plugados. Antes da viatura ser despachada para o local, temos uma idéia da ocorrência. Praticamente, despachamos a aeronave junto com a viatura. Isso agiliza a atuação. Na média, levamos três minutos para a decolagem e não mais do que dois minutos para chegar ao sítio de operação.

JC - Nesse caso, o controle de tráfego aéreo do aeroporto dá prioridade ao Águia?

Leão - Sem dúvida. A prioridade é para a operação policial. Aos invés, por exemplo, de liberar a decolagem de um avião de carreira ou particular, a preferência será dada à nossa aeronave. A decolagem é muita rápida. Quem ficar no aguardo vai perder no máximo um minuto.

Comentários

Comentários