Bairros

Tá quente, tá frio

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 5 min

Quando a “moça do tempo” dos telejornais televisivos mostra no mapa a temperatura prevista para uma determinada região, o cidadão que a assiste pode não saber que lá fora, na sua cidade, o valor pode não ser o apresentado pelo simples fato de que, ao atravessar uma rua, a variação no termômetro pode atingir até 3ºC.

Isso acontece porque estudos já descobriram que o modelo de desenvolvimento urbano brasileiro, na imensa maioria dos casos feito sem planejamento, cria nas cidades as chamadas “ilhas de calor”. Principalmente nas grandes metrópoles, cobertas de concreto e poluição, o fenômeno se mostra com mais evidência, com áreas de temperaturas mais elevadas que a média geral e menor umidade do ar, principalmente à noite.

Segundo Magda Adelaide Lombardo, geógrafa do campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Rio Claro, que desde o final da década de 1970 estuda as ilhas de calor em São Paulo, a maior cidade brasileira, a origem desse fenômeno está na redução das áreas verdes e na ocupação do ambiente urbano por obras de concreto e asfalto, adensamento populacional e poluição gerada pelas indústrias e circulação de automóveis.

Em recente matéria veiculada no Jornal da Unesp, Lombardo explica que, como a umidade nas superfícies dos centros urbanos é reduzida, parte da energia solar que incide nesses locais e que não é gasta no processo de evaporação contribui para o aquecimento do ar, mesmo depois do pôr-do-sol.

Ela constatou em suas pesquisas que o aquecimento da metrópole paulistana nos últimos 50 anos ficou em 1,2ºC, índice considerado por ela como “exorbitante”, principalmente se comparado com a alta, no mesmo período, registrada em Nova York (0,8ºC).

Semelhante

Bauru não se encaixa na definição de grande metrópole - não tem o adensamento e a verticalização registrados na Capital -, mas por aqui a situação se repete na maioria das regiões de seu perímetro urbano. É o que comprovam estudos de pesquisadores do Núcleo de Conforto Ambiental (Nucam) da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp-Bauru.

Formado pelas arquitetas Léa Cristina Lucas de Souza e Maria Solange Gurgel de Castro Fontes e pelo engenheiro João Roberto Gomes de Faria, o Nucam foi a campo para comprovar a ocorrência e a localização das ilhas de calor em Bauru e as formas mais econômicas de se levantar os dados para as pesquisas.

Em Bauru, os levantamentos do Nucam ratificam a literatura já consolidada sobre o tema e indicam que a principal forma de se combater a formação das ilhas de calor está relacionada com um planejamento ambiental que reserve mais e mais espaços para áreas verdes.

Esses espaços, quando existentes, são chamados de “ilhas de conforto” segundo definição da arquiteta Solange Fontes, que comandou outra frente de pesquisas no Nucam que avalia o microclima de algumas áreas verdes da cidade. Esses “oásis”, porém, ainda são bastante escassos na cidade.

Metodologia

Segundo o engenheiro do Nucam, a metodologia de trabalho empregada na pesquisa local utiliza a fundamentação proposta por um estudioso sueco, com a diferença na instrumentação empregada e, conseqüentemente, na abordagem de tratamento dos dados.

“Enquanto eles (europeus) empregam um grande número de instrumentos simultaneamente, propõe-se aqui reduzir o investimento em instrumentação, através da realização de medições móveis, chamadas transectos”, explica Faria. Para o engenheiro, a principal vantagem do método adotado em Bauru é a rapidez na obtenção dos dados e a simplicidade da instrumentação exigida.

Segundo ele, o mapeamento térmico da cidade de Bauru foi feito de carro, durante vários dias, com o objetivo de identificar quais as regiões mais quentes e mais frias dentro o perímetro urbano. A comparação foi feita com dados fornecidos por um termômetro de leitura freqüente da estação local do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da Unesp-Bauru.

Feita a coleta de dados pela cidade, o próximo passo foi relacionar as variações de temperatura encontradas com a forma de urbanização adotada na cidade. “O resultado já era conhecido, mas as pesquisas visam confirmar os dados da literatura”, reforça a arquiteta Solange Fontes.

Faria admite que o mapeamento em Bauru é preliminar e “meio grosseiro”. “A grande dificuldade foi conseguir uma base digital atualizada da cidade”, conta o engenheiro. Por isso, as pesquisas utilizaram uma base antiga e uma ferramenta conhecida como Sistema de Informação Geográfica (SIG), um programa de computador no qual, através de imagens digitalizadas, é possível realizar o cruzamento de informações.

“Fizemos as medições ‘na unha’, por partes, nos bairros e em trechos de ruas”, completa. Os dados urbanos disponíveis (mapas, prédios, áreas de vegetação) foram complementados com informações retiradas de imagem satélite (Landsat-7) e de outras fontes, como o Plano Diretor de Bauru.

Com a operação desses dados através do SIG foi possível gerar uma imagem que possibilitasse uma classificação de uso e ocupação do solo urbano adequada aos propósitos da pesquisa. “Apesar de não termos acesso a bases cartográficas atualizadas, a sua montagem a partir de imagens de satélite forneceu insumos importantes para as análises, em particular a associação entre temperatura do ar e densidade da vegetação”, diz Faria em seu trabalho.

Verde indispensável

Os resultados da pesquisa desenvolvida pelo Nucam em Bauru confirmaram os relatos encontrados na literatura especializada e também em trabalhos anteriores: a distribuição da vegetação exerce um papel fundamental na variação das características térmicas do clima intra-urbano.

Assim, as áreas mais densamente construídas, como alguns bairros residenciais e conjuntos habitacionais apresentam maiores taxas de aquecimento e de resfriamento, em contraposição a áreas com proporção expressiva de vegetação, como bosques, praças e os fundos de vale com grandes extensões de vazios com cobertura vegetal.

“Aqui na cidade a questão das ilhas (de calor ou de “conforto”) está relacionada diretamente com a quantidade da vegetação, pois a arborização, entre outros benefícios, resfria o ar”, completa Faria.

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