“Só fumo de vez em quando. É um cigarro sem compromisso”, conta o vendedor Marcos de Almeida Brandão. Aos 25 anos e “fumante casual” há seis anos, Brandão acredita que os poucos cigarros que fuma não vão lhe causar problemas de saúde. Triste engano. Médicos lembram que, mesmo em pouca quantidade, o tabaco pode causar doenças respiratórias e cardiovasculares. Hoje, dia Nacional de Combate ao Fumo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma pessoa morra a cada seis segundos e meio no mundo vítima de doenças causadas pelo tabagismo.
Em apenas uma tragada, o fumante ingere aproximadamente 4.750 substâncias tóxicas, segundo o médico pneumologista Sebastião Antonio Benetti. “É um bombardeio, isso é pior do que muitas outras drogas”, ressalta. Apesar do alerta, garante: “Está tudo controlado. Não me considero dependente e não me faz falta quando não fumo”.
A segurança do vendedor, entretanto, não convence e, para os médicos, pode ser apenas o primeiro passo para a dependência. “Aos poucos o organismo cria uma tolerância e a pessoa começa a ter que fumar mais”, explica a médica homeopata Sandra Mara de Oliveira Lima.
Segundo ela, existem três classificações para os fumantes: leve (fuma de vez em quando e menos de cinco cigarros ao dia); moderado (meio maço por dia e consegue ficar horas sem fumar); e o grave (acima de um maço por dia e dependente do cigarro). Como o cigarro tem efeito acumulativo no organismo, se o fumante leve for sensível, pode desenvolver as mesmas doenças dos graves. “Em nenhum estágio se está isento. Já vi casos de câncer e outros problemas graves em pessoas que fumavam menos de cinco cigarros por dia”, lembra Lima.
A estudante Mariana Rodrigues, 22 anos, diz não se enquadrar em nenhum dos três. “Fumo nas baladas e só de noite. É só para acompanhar a festa. Não me considero uma fumante porque, se fico sem fumar, não tem problema”, conta a estudante, cujo hábito é cultivado há cinco anos.
A maneira casual e descompromissada de identificar a relação com o cigarro é vista com cautela pelo pneumologista Benetti. Em sua opinião, pessoas como Marcos Brandão e Mariana não se consideram, mas já seriam fumantes. “Hoje é em festa, mas a tendência é aumentar. É bom repensar o hábito porque a nicotina cria dependência mesmo em pequenas doses”, diz.
Comportamento
Leves ou graves, as desvantagens e as conseqüências do fumo são as mesmas para todos os fumantes. A única vantagem dos leves, na opinião da médica Sandra Lima, está na hora de deixar o cigarro. “Se quiser parar é mais fácil porque o cigarro não está inserido no dia-a-dia da pessoa e ainda não há tanta dependência química”, explica.
Facilidade que certamente o professor Percival Artur Matos não vai encontrar quando quiser abandonar o vício de 40 anos. Aos 54 anos, ele já não consegue ficar mais de duas horas seguidas sem fumar. “Não gosto nem de ir ao cinema. Alguns filmes têm intervalo, daí... ufa”, conta. Matos já tentou parar, mas conseguiu ficar apenas três dias longe do cigarro. “Foi difícil. Até sonhava com ele”, lembra.
Atualmente, o professor fuma um maço por dia e está pensando em, mais uma vez, abandonar o vício. Para isso, o pneumologista Benetti adianta que o mais importante é ter força de vontade. “Não adianta vir (fazer consulta) porque alguém pediu. A pessoa deve ter uma vontade enorme de parar. Com isso, ele já tem 70% de chance de deixar”.
Os médicos Sandra Lima e Sebastião Benetti explicam que as formas de tratamento atualmente aliam remédios, terapias e o estímulo a atividades físicas. “Trabalha-se o lado emotivo e a auto-estima do paciente. O tratamento pode levar até dois ou três meses. Mas a vontade de fumar pode durar anos”, lembra a médica.
Além dos métodos científicos, a participação da família e dos amigos também ajuda. Pedir e “fazer pressão” podem estimular o fumante a abandonar o cigarro. “Minhas filhas, minhas sobrinhas e meus amigos me enchem para eu parar (de fumar). Vai ter uma hora que, sofrendo ou não, vou ter que parar”, reconhece Percival Matos.