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Todos certos... tudo errado!


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Em seu consultório particular, o médico foi procurado por uma pessoa que reclamava de fortes dores no abdome e apresentava considerável emagrecimento. Proveniente de cidade da região, já tinha feito, através do sistema oficial de saúde, uma série de exames sem que se chegasse a uma conclusão a respeito do mal que a afligia.

Depois de ouvi-la e examiná-la atentamente, o médico solicitou alguns exames que a família, mais uma vez somando seus esforços, conseguiu bancar. Os resultados foram extremamente preocupantes: era grande a suspeita de uma doença maligna. O que fazer? Os passos seguintes eram muito dispendiosos: exames mais especializados, internação e possível operação de grande vulto. A família não tinha como fazer frente aos gastos. O médico se dispôs a ajudar. Entrou em contato com um colega de um grande hospital público buscando uma vaga para internação e provável operação. O colega teve a maior boa vontade, mas nada conseguiu, até porque o número de vagas havia sido diminuído recentemente.

Procurou vaga na Santa Casa, um hospital filantrópico, conveniado com o sistema de saúde oficial. A boa vontade também estava presente, mas havia um problema muito sério. A previsão de gastos com o tratamento do paciente superava, em muito, o que seria pago pelo sistema oficial, e isso, somado a outros casos do mesmo tipo, ajudava a colocar em risco a própria viabilidade do hospital. Ainda assim, a internação foi feita.

Em todo esse drama humano, vale analisar o comportamento dos protagonistas. Quem agiu certo? Quem agiu errado? É claro que agiram corretamente: a família, que procurou todos os meios ao seu alcance para garantir o melhor atendimento ao paciente; os médicos da cidade menor, que procuraram, dentro das limitações tecnológicas encontradas, chegar a um diagnóstico correto; o médico particular, que teve a sensibilidade de pessoalmente procurar recursos de alto nível levando em conta a falta de condições econômicas do paciente; o médico do grande hospital público, que se dispôs a ajudar, desde que houvesse vaga; os médicos do hospital filantrópico, que internaram e cuidaram, de modo praticamente gratuito, do doente; e o hospital filantrópico, que, fazendo jus a seu título, possibilitou a internação, mesmo sabendo que seria deficitária.

Enfim, todos estão certos. Mas, nessa história, tudo está errado. Que tipo de sociedade estamos construindo, que opõe tantas dificuldades às pessoas doentes e carentes de recursos? Que tipo de sociedade é esta que, ao invés de aumentar, diminui o número de vagas de um hospital de valor e importância crucial? Que tipo de sociedade é essa que reserva para hospitais que lutam com dificuldades pagamentos insuficientes para cobrir seus gastos e continuar servindo a esta mesma sociedade e que reserva remunerações aviltantes a profissionais responsáveis pelo nosso principal patrimônio, que é a saúde? É preciso rever tudo isso. Uma situação em que todos estão certos e tudo está errado merece análise profunda, se quisermos realmente construir uma sociedade mais justa e humana.

O autor, Isac Jorge Filho, é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo

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