Certa vez, um dirigente do FMI, perguntado sobre a guerra entre ricos e pobres, respondeu: “Guerra? Que guerra? A guerra já acabou... e os pobres perderam”. Seria triste imaginar que algum possível vencedor pudesse ter orgulho diante de uma peleja desse tipo, talvez devesse sentir vergonha. Mas, vergonha, pelo percebido, não deve passar, nem raspando, pela reflexão moral de quem se julga vitorioso. Numa guerra dessas, não tenha dúvida, todos perdem.
Vencer a miséria, ampliando os miseráveis não nos faz elite. Elite é, na essência, o que temos de melhor. Portanto, a verdadeira excelência de um povo jamais poderia produzir uma sociedade tão desigual. Este País, abençoado, belo e heróico, sufoca seu brado numa realidade mesquinha e amarga a lanterna do desenvolvimento latino-americano. E, para que não haja dúvidas, é bom lembrar que, neste planeta, não há país nenhum que o vença em desigualdade social. A não ser a pequena Serra Leoa - no oeste africano - que não foi abençoada, não a deixaram ser bela e seu povo vive a desgraça de uma guerra civil.
Assim, permita-me questionar: Como conseguimos tal façanha? Como, de tão rico País produzimos tantos miseráveis, de tão belo rincão construímos tão feio desequilíbrio e de heróico povo não produzimos sequer uma elite suficientemente justa, socialmente responsável e humana. É prudente ressalvar que não creditaria à elite de meu País as nossas mais tristes mazelas. Por uma simples razão, penso: Nós ainda não a construímos ou, justiça seja feita, pelo menos na quantidade ou qualidade suficiente para reverter uma estreiteza cultural, de séculos, que teimamos em tornar perene.
O nosso maior erro, talvez, esteja onde buscamos nossas excelências. A nata da Nação brasileira não está nos abastados, quando carregam a avareza; nos letrados, quando exprimem arrogância; nas autoridades, quando mostram prepotência; nos poderosos, quando se resumem à soberba. Eles não sentem vergonha, não se movem a favor do justo. Elevá-los à condição de elite é um erro que pode custar muito caro a um povo. O que temos de melhor é bem mais simples e nobre... e que precisa ser descoberto.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista, coordenador do Projeto ScienceNet de Ciência e Cidadania - e-mail: lvict@terra.com.br