Pesca & Lazer

História de Pescador: A havaiana


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Em 1962, em Avaí, tratamos uma pescaria no rio Dourado próximo à cidade de Lins, sendo que iria eu e meu tio Carlito e o seu irmão, o Zeca Venâncio.

No dia seguinte, após quatro horas de viagem espremidos entre a “traia” e um enorme motor de popa Evenrude “cabeçudo” que lotava completamente o Jipe Wiliis 51, chegamos ao local da pescaria localizada sob uma ponte, onde armamos o acampamento, pois, como disse antes, o rio Dourado não tinha barranco, porque sua extensão era constituída de banhados.

A razão do rio Dourado ser tão piscoso era por ter as suas matas ciliares conservadas e intransponíveis, aliada ao conjunto de lagoas vazantes e alagadiços em perfeita harmonia, tornando assim o local ideal para a fauna aquática e também para as sucuris, pois era comum nas pescarias toparmos com um ou dois desses belos animais.

Enquanto o Zeca organizava o acampamento, eu e o Carlito fomos armar uma rede a fim de conseguirmos iscas para os anzóis de galho e para a pescaria de rodada.

Em pouco tempo conseguimos iscas como curimbatá e piaus, sendo que de imediato fomos armar e iscar os anzóis de galho, pois já estava querendo anoitecer e já era quase o horário dos pintados saírem “bocar”.

Depois fomos pescar de rodada, onde ficamos até as 10h, mas nada de peixe, subimos o rio vendo os anzóis e nada, resolvemos regressar ao acampamento e lá chegando notamos que o mesmo estava às escuras. Ao adentrar a barraca, lá estava dormindo o Zeca e ao seu lado uma garrafa de Tatuzinho completamente vazia. O jeito foi nós mesmos fazermos a janta, que seria arroz com lingüiça assada, que simplesmente tinha sumido, enfim, jantamos arroz e iscas fritas.

Na manhã seguinte, enquanto o Zeca dormia, eu e o Carlito fomos correr os anzóis, e mais uma surpresa: os anzóis estavam com as iscas. Demos um tempo pescando de rodada e mais uma vez nada de peixe.

Voltamos ao acampamento e lá chegando vimos o Zeca fazendo o almoço, mas com o copo da branquinha na mão, ocasião que o Carlito perguntou se ele não tinha visto um pacote de lingüiça. O Zeca respondeu: “- Só se foi aquele pacote que eu peguei como travesseiro” - e era o dito cujo.

Após calorosa discussão, almoçamos e fomos pescar enquanto o Zeca foi dormir completamente “bebinho”, ocasião em que Carlito, chateado, me disse: “- Vamos tentar mais essa noite. Se não der nada amanhã, nós vamos embora”. E assim à noite iscamos novamente os anzóis de galho.

Na manhã seguinte, ao sairmos do acampamento para corrermos os anzóis, notei uma vara de bambu fincada defronte ao acampamento, provavelmente armada pelo Zeca Venâncio. Ao verificarmos a vara, notamos que ela estava iscada com um piau e tinha como bóia uma velha sandália de dedo tipo “Havaiana”. Demos risada sobre o fato e fomos correr e recolher os anzóis e nada de peixe. Voltamos ao acampamento a fim de arrumarmos as coisas e retornarmos para Avaí.

Quando íamos chegando ao acampamento, ouvimos gritos do Zeca, ocasião que aceleramos a nossa chegada. Lá chegando notamos o Zeca com um enorme pintado (22 quilos) que tinha fisgado na vara de bambu e tinha como bóia uma sandália velha tipo “Havaiana”.

O chato não foi eu e Carlito voltarmos sapateiros, duro mesmo foi agüentar a gozação do Zeca durante o nosso regresso.

Sérgio Andrade Moreira é pescador e contador de histórias

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