Tribuna do Leitor

Universidade pública, corporativismo e exclusão


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Os inteligentes debatem idéias, os néscios debatem pessoas e os tolos debatem coisas pequenas. Todo poder emana do povo, portanto, nada mais justo do que afirmar que a classe política é o reflexo da nossa sociedade. O governo foi ou sempre será nós, os partidos apenas materializam as vontades de grupos com fins particulares.

Todos os segmentos da sociedade têm o direito de defender os seus interesses. Mas a partir do momento em que esses interesses tornam-se privilégios e passam a excluir as parcelas mais humildes da população, cessa a democracia e começa um câncer político chamado corporativismo. Logicamente que o papel das categorias profissionais é importante, mas o do povo é muito mais.

Alunos do câmpus da Unesp fizeram paralisação e passeata em conjunto com os funcionários e professores para protestarem contra o veto do governador Geraldo Alckmin (PSDB) ao aumento de 0,43% no repasse de verbas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para as universidades públicas paulistas. Ora, a princípio qualquer manifestação a favor de aumento de verba para a educação e a saúde é absolutamente salutar, no entanto, muitas vezes a embalagem é diferente do conteúdo nessas reivindicações.

É necessário apontar, sem paixões, ideologias falidas ou cegueira mental, que a universidade pública brasileira, e a paulista não é diferente, virou uma espécie de mãe de leite ao destinar mais de 90% de sua verba para pagar professores e funcionários. E por causa dessa irracionalidade administrativa sobra pouco para os investimentos e as pesquisas. Também não podemos deixar de citar que o Brasil é o segundo país do mundo em falta de distribuição de renda e se constitui uma vergonha nacional o pobre ter que pagar mesmo sem ter condições a faculdade particular e os mais abastados socialmente estudarem de graça nas universidades públicas. Vão me dizer ou apresentar dados dos pobres que estudam nessas universidades, mas além de serem exceções cursam matérias de pouca projeção social devido ao preconceito de setores da nossa elite.

Outra coisa: toda manifestação é democrática e a passeata dos alunos da Unesp estava bem organizada. Mas convém lembrar que em alguns países os universitários públicos são obrigados a dedicar parte das suas atividades para a população. Aliás, nada mais justo, porque quem banca a formação desses alunos é o imposto do povo. Em contrapartida, no Brasil, a maioria dos universitários públicos que se formam abrem consultórios particulares cujas taxas de serviços são inacessíveis para os mais carentes. São poucos os formandos que fazem a ação comunitária.

Por incrível que possa parecer, as faculdades particulares fazem mais ação social do que as universidades públicas aqui na nossa nação. Portanto, se for para continuar do jeito que está a universidade pública, sou a favor do veto do governador. Agora, se for para mudar e atender ou priorizar os mais pobres, 0,43% de repasse é pouco. Exijo 50%. E os que ontem eram os apóstolos das mudanças chegaram no poder e tornaram-se os revolucionários da corrupção.

Pedro Valentim

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