Ser

Sogra x Nora

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

“Quando uma pessoa se casa, se casa também com sua família”, diz a máxima presente no imaginário popular. O matrimônio instituiu a multiplicidade de papéis na sociedade: o irmão passa a ser cunhado, o pai se torna sogro e a mãe se transforma em sogra, personagem que carrega uma série de estereótipos e muitas vezes é alvo de piadas e brincadeiras.

Na comédia recém-lançada “A Sogra”, a famosa apresentadora de TV Violla (Jane Fonda) não aceita o namoro do filho Kevin (Michael Vartan) com Charlie (Jennifer Lopez). Quando os dois decidem se casar, ela passa a infernizar a vida da nora, se hospeda na casa dos pombinhos e inicia uma série de “armadilhas” para separá-los. Em uma delas, finge estar doente para ser o centro das atenções.

A história se repete na telinha. Na novela global “América”, a atriz Neusa Borges vive dona Diva, uma sogra encrenqueira que busca uma “mulher direita” para o filho Feitosa (Aílton Graça). Assim, não mede esforços para separá-lo da bela namorada Islene (Paula Burlamaqui), difamando a moça no bairro e arrumando outras pretendentes para o herdeiro. Entre elas, Creusa (Juliana Paes), que se passa por ingênua e religiosa.

Assim como na ficção, o relacionamento de sogras e noras na vida real é, muitas vezes, baseado em embates e constantes conflitos. De um lado a sogra, cuja imagem é associada à de mulher chata ou intrometida, e de outro a nora, que pode ser vista como rival ou aquela que “rouba o filho”, explica a professora e terapeuta especializada em casais e família Maria Ivone Marchi Costa.

Segundo ela, a maneira preconceituosa como é encarada a relação sogra/nora pode dificultar o estabelecimento de vínculos entre elas. “Popularmente, o preconceito recai sobre a sogra, que se tornou um mito construído socialmente. Na nossa cultura, ela está associada a uma imagem de alguém inoportuno e que deve ser suportado por qualquer pessoa em algum momento da vida. Isso pode gerar uma pré- disposição negativa por parte de algumas noras ou genros, que acabam mantendo uma relação distante e pouco tolerante”, diz.

Hostilidade

O clima de duelo pontua o convívio da vendedora Mara*, 29 anos, com sua sogra, que não aprova o namoro dela com seu filho, iniciado em 2003. “Ela acha que não sou a mulher ideal porque sou mais velha e tenho dois meninos, de 6 e 10 anos. Mas ele tem 27 anos e também tem um filho”, conta. “Minha sogra fala que eu destruí a vida do seu filho e fala mal de mim para todo mundo”, reclama.

O cenário hostil a impede de freqüentar a residência do namorado. Além disso, segundo ela, quando o casal se encontra, geralmente em sua casa, precisa driblar certos desafios. “Muitas vezes, se ela descobre que está comigo, fica ligando para ele dizendo que está passando mal e pede para que fique com ela. Por isso, meu namorado até a chama de dona Diva (uma referência à personagem da novela)”, brinca.

Mas a antipatia não se restringe apenas à sogra de Mara. De acordo com ela, sua mãe também não gosta do futuro genro. “Ela diz que meu namorado não serve para mim e que só estraga minha vida. Quando ele está na minha casa, minha mãe nem aparece”, revela.

A designer Juliana*, 25 anos, também precisa enfrentar barreiras em seu relacionamento de quatro anos com o publicitário Renato*, 25 anos. A exemplo de Mara, tanto sua mãe quanto sua sogra têm restrições em relação ao namoro. “Desde o início minha mãe não gosta muito dele, que, por sua vez, acha que ela se intromete muito em nossa vida”, diz.

“Já minha sogra é exatamente o oposto de mim e nosso ‘santo não bate’. Por isso nossa relação não é boa. Quando tive que fazer uma operação, por exemplo, ele nem ligou para saber como eu estava”, conta Juliana. O clima tenso entre sogras, nora e genro acaba, diversas vezes, dificultando a convivência do casal, aponta a designer.

“Esse problema pode estragar um pouco o relacionamento porque, quando estou com raiva da mãe dele, não quero ir à sua casa e vice-versa. Como nos vemos mais aos finais de semana, já aconteceu de brigarmos por causa de nossas famílias”, confessa Juliana.

* Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados

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Relação saudável

Apesar dos conflitos existentes entre sogras, noras e genros, o relacionamento entre eles deve ser baseado em bons sentimentos, enfatiza a professora e terapeuta de casais e família Maria Ivone Marchi Costa. Segundo ela, a maturidade emocional ajuda a construir relações de amizade e cumplicidade.

“Cada um exerce um papel diferente e por isso não é preciso competir. A nora, por exemplo, pode conquistar uma poderosa aliada e até descobrir na sogra uma mulher experiente e com várias qualidades”, diz Costa. “É importante as partes se sentirem aceitas e bem-vindas na família. O sentimento de rejeição e exclusão gera sofrimento e pode ser expresso em forma de hostilidade”, acrescenta.

Além disso, ressalta ela, o cônjuge exerce papel fundamental no desenvolvimento da relação sogra e nora. “Cabe ao filho saber separar o amor de mãe e o amor de esposa, evitando o conflito e tentando melhorar a convivência entre elas”, aponta.

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