Ao passar em frente a uma vitrine, a professora de educação física Erica Aparecida Efrisio, 20 anos, não resiste e compra uma blusinha. Mas seu desejo por adquirir coisas novas não pára por aí. “Esses dias fui pagar uma conta e comprei diversas toucas de natação, uma de cada cor, além de maiôs e bolsa”, conta ela, afirmando ser consumista, a exemplo de milhares de pessoas que não conseguem controlar seus impulsos e consomem demais.
Erica tem mais de 33 pares de sapatos no armário e três gavetas recheadas de roupas de ginástica, uma de suas preferências. Além disso, coleciona dezenas de calças jeans e blusinhas. “No meu armário há coisas que ainda nem usei”, revela. Ela tem carnês de compras em diversas lojas e afirma que o ato de comprar a deixa feliz.
“Sou bem consumista. Se tenho de ir ao Centro da cidade de ônibus, por exemplo, chego ao ponto de gastar tanto que tenho de vir embora andando. Além disso, no trajeto, se eu passar em frente a uma loja e estiver com meus documentos ou a carteira de trabalho, pergunto se abre conta e marco uma promissória para o próximo mês”, diz.
Embora pouco conhecida, a compulsão por compras, ou oneomania, afeta cerca de 1% da população mundial, segundo estimativa da Associação Americana de Psiquiatria. O distúrbio é mais comum entre as mulheres em razão de fatores culturais, explica a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, especializada em psicodrama e terapia de casais e família.
“As pessoas que compram compulsivamente têm, com freqüência, a auto-estima baixa. Compram em excesso e sem necessidade muitos produtos que provavelmente não vão usar. Isso costuma gerar sentimento de culpa”, diz Vanin.
Impulsos
Nesse panorama, os cartões de crédito e cheques especiais funcionam como um oásis, proporcionando sensação de satisfação e poder. A maioria dos consumistas não resiste a uma liquidação, caso do cantor e publicitário Earl Garms de Oliveira, 25 anos. Ele não consegue resistir ao impulso de comprar e é muito conhecido em diversas lojas de Bauru e também de São Paulo, para onde vai quinzenalmente adquirir novidades.
“Adoro promoções. Quando há alguma ou lançamento de coleções, os vendedores me avisam. Tenho dois cartões de crédito e já cheguei a ficar endividado. Sempre vivo apertado e o pior de tudo é que isso não me desmotiva a continuar consumindo”, confessa.
Fã de roupas, sapatos, celulares e DVDs, Earl coleciona dezenas de exemplares desses produtos em sua casa. As camisetas ocupam 16 gavetas. Os DVDs, de shows e de filmes, entre eles animações de as trilogias “Senhor dos Anéis” e “Matrix”, são acondicionados em uma estante e ocupam um espaço generoso na sala. “O celular não dura três meses comigo. Quero trocar sempre por um modelo mais novo ou um plano diferente. Já tive aparelhos de todas as operadoras”, conta ele.
“Tenho um impulso forte de comprar. Não posso ver nada novo ou um pouco mais bonito do que o meu que já me empolgo. Sou vítima das minhas próprias armas”, brinca o publicitário.
Segundo Vanin, a sociedade capitalista favorece e estimula o consumismo. Ela explica que a valorização do “ter” em detrimento do “ser” reforça a idéia de que tudo é descartável e deve ser substituído.
“As campanhas publicitárias incentivam a insatisfação e o consumo do supérfluo e são cada vez mais invasivas. Somos bombardeados diariamente por meio da TV, computador e outros meios de comunicação por um tipo de propaganda que possui grande apelo psicológico”, aponta a psicóloga.