Bairros

Terapia pode evitar mudança de casa

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Uma experiência violenta no próprio lar geralmente deixa em suas vítimas importantes seqüelas psicológicas que, se não forem devidamente tratadas, podem progredir para doenças mentais ou físicas. A advertência é da psicóloga Carmen Maria Bueno Neme, pós-doutorada na área de estudos fisiológicos do estresse.

Segundo ela, uma categoria diagnóstica chamada transtorno do estresse pós-traumático trata de pessoas que vivenciaram situações de extremo estresse e, por isso, passam a apresentar vários sintomas de descompensação psicofisiológica, como palpitação, hipertensão, disfunções gástricas, entre outras.

Neme explica que esse conjunto de reações é normal em qualquer animal ou ser humano diante de uma situação de extremo estresse. Seria uma forma de o organismo se preparar para enfrentar o perigo. O problema surge quando essas alterações começam a acontecer sem que haja uma motivação real.

“Isso pode ser ativado diante de qualquer situação que traga lembranças, mesmo que muito vagas, da situação de estresse vivida. É como se a pessoa estivesse vivendo aquela situação traumática novamente”, diz. É nesses casos que muitas pessoas decidem se livrar das lembranças do passado abandonando um local muitas vezes especial como o próprio lar. “A decisão de mudar de casa acarreta gastos e traumas e mesmo assim essa pessoa não acha outra saída”, completa.

A psicóloga lembra que, em casos crônicos, o estresse pós-traumático pode desencadear uma série de doenças físicas ou mentais, como depressão, transtorno depressivo, ansiedade generalizada. “Tudo vai depender da estrutura do indivíduo, da intensidade da situação, de experiências anteriores e aspectos biológicos”, explica.

Neme, que também é professora de psicologia clínica e somática na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, sugere que antes de uma decisão drástica como mudar-se de casa, a vítima de uma violência procura auxílio de profissionais. “Caso contrário ela terá que fugir a vida inteira de qualquer coisa que lembre o fato. Agora é a casa, mas depois pode ser uma notícia na TV, o comentário de alguém na fila do banco ou uma simples lembrança que desencadeará todas aquelas reações”, diz.

Hora de tratar

Carmen Neme explica que o próprio organismo envia sinais às vítimas de um estresse de que chegou o momento de buscar tratamento. Segundo ela, isso surge quando a pessoa não consegue se livrar da lembrança da situação violenta, passa a apresentar as reações características de estresse (sudorese, palpitação, angústia, ansiedade, medo agudo, transtornos gastrointestinais, hipertensão), não retoma suas atividades normais e corriqueiras, como tomar banho sozinha, ou sofre de insônia porque “precisa ficar alerta”.

O problema, lembra a professora, é que muitas pessoas custam a perceber ou a admitir que precisam de tratamento especializado. “Elas pensam que vai passar sozinho ou que o simples fato de mudar de casa vai resolver. Na verdade, a relutância em procurar ajuda surge porque essas pessoas têm medo de falar sobre o fato, ficam se esquivando. Esse comportamento, muitas vezes, acaba agravando o quadro”, avalia.

Segundo a psicóloga, já existem intervenções específicas para casos de estresse pós-traumático que envolvem procedimentos terapêuticos específicos, numa referência ao serviço prestado no Hospital das Clínicas (HC), na Capital, que oferece programas de tratamento que envolvem médicos, psicólogos e assistentes sociais.

Em casos mais agudos, terapias medicamentosas também são aplicadas. “Não é uma psicoterapia comum, mas especializada nesse tipo de situação”, explica Neme. Segundo ela, os tratamentos oferecem saídas para que essas vítimas enxerguem o problema de uma forma diferente.

“Não existe uma borracha para a memória e ninguém vai apagar as lembranças (do fato violento). Mas podemos ajudar estas vítimas a circunscrever aquele episódio, trabalhando as principais vivências ocorridas no sentido de poder ressignificar o fato”, comenta, lembrando que a família da vítima também pode sofrer seqüelas e precisar de atenção terapêutica. “A família será uma importante fonte de apoio”, diz.

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Efeito indireto

Não é necessário que uma pessoa tenha vivido uma situação de violência para que desenvolva os sintomas característicos do estresse pós-traumático. “Basta ela ter presenciado um fato ou viver num ambiente violento. É como se tivesse vivido (o trauma) junto coma vítima”, assegura a psicóloga Carmen Maria Bueno Neme, professora de psicologia clínica e somática na Unesp-Bauru.

É o caso do conferente João (nome fictício), morador no Parque São João, região oeste da cidade, próximo a um local que já abrigou uma favela com o mesmo nome. “Ainda não sofri com a violência, mas a vejo todos os dias. Por isso quero me mudar daqui”, diz o conferente, que não admite sequer ver seu nome estampado no jornal.

Funcionário de uma transportadora, onde trabalha de madrugada, João não consegue se sentir tranqüilo sabendo que sua mulher e a filha de 2 anos passam a noite sozinhas na casa alugada. Essa idéia fixa sobre um problema que sequer aconteceu pode ser um dos sintomas de estresse.

Para aliviar a situação enquanto não encontra meios de mudar-se de casa, João trouxe uma cunhada para viver na casa para fazer companhia à sua família. “Quero sair, mas não sei para onde. Só sei que tanto eu quanto minha mulher não conseguimos nos livrar da sensação do medo”, completa.

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