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Maluf teria enviado US$ 11 mi aos EUA

Por Lilian Christofoletti | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

São Paulo - Documentos bancários do Safra National Bank de Nova York (EUA) confirmam os 14 depósitos, que totalizam US$ 10,98 milhões, efetuados em janeiro de 1998 na conta Chanani, movimentada pelo doleiro Vivaldo Alves, o Birigüi, que afirmou que todo o dinheiro é do ex-prefeito Paulo Maluf e do filho Flávio.

O ex-prefeito e o filho negam a remessa ilegal de dinheiro para o Exterior e dizem que foram vítimas de uma tentativa de extorsão por parte do doleiro (leia texto ao lado).

Os dados do Safra National Bank chegaram ao Brasil em março deste ano, quando o promotor Sílvio Marques e o procurador Pedro Barbosa viajaram aos EUA e receberam cerca de 8.000 papéis bancários do promotor distrital Adam Kaufmann por ordem da Suprema Corte do Estado de NY.

Chamou a atenção do Ministério Público o fato de os depósitos da conta Chanani coincidirem em centavos e datas com os valores apresentados em maio de 2002 por Simeão Damasceno de Oliveira, ex-diretor da construtora Mendes Júnior.

À época, Oliveira acusou Maluf e a Mendes Júnior de superfaturar contratos para a construção da avenida Água Espraiada (hoje Jornalista Roberto Marinho) e enviar o dinheiro para o Exterior - o ex-prefeito e a construtora disseram que a acusação era falsa.

Ao depor, Oliveira entregou à Promotoria uma planilha com operações que ele disse ter realizado para beneficiar Maluf.

No quadro, listou 14 operações, que totalizam US$ 10.982.777,18, datadas entre 4 e 20 de janeiro de 1998. Disse que esse montante foi entregue ao doleiro, que remeteu o dinheiro à Chanani.

Oliveira incluiu na planilha uma operação de US$ 174.501, para a qual fez uma ressalva. Disse que o valor foi entregue em papel-moeda diretamente a Maluf no dia 28 de janeiro daquele ano.

Por conta do depoimento dele, a Promotoria pediu em 2002 a quebra do sigilo internacional do ex-prefeito de São Paulo.

O doleiro citado no depoimento do ex-gerente da Mendes Júnior é Birigüi, que foi ouvido duas vezes pela Polícia Federal (PF) neste ano.

Birigüi confirmou os valores citados por Oliveira e disse que abriu a Chanani em outubro de 1997. Depois, a conta foi substituída pela Ugly River, em maio de 1999, e, em junho de 2000, ganhou um novo nome, Madison Hill Ventures Inc..

No total, o doleiro afirmou que as três contas bancárias movimentaram aproximadamente US$ 161 milhões - sendo US$ 150 milhões só na Chanani. Todo o dinheiro, disse, pertence a Maluf e ao seu filho Flávio.

Escutas

Os grampos telefônicos realizados pela Polícia Federal, com ordem judicial, mostram que Flávio e Birigüi se conheciam. Evidenciam ainda uma tentativa de impedir o depoimento do doleiro ao Ministério Público Federal.

A interceptação registra pelo menos três diálogos e um encontro entre Flávio e Birigüi. Em uma das três conversas, Flávio refere-se ao doleiro como “amigo”. Todas as ligações partiram do filho do Maluf.

Foi com base nessas conversas, gravadas entre 14 de junho e 20 de julho deste ano, que a PF pediu a prisão preventiva de pai e filho. Disse que os dois tentaram intimidar uma testemunha.

Um dos encontros entre Flávio e Birigüi foi filmado pela polícia. Cinco minutos depois de deixar o local, Flávio ligou para o pai e disse que “a chance é 60 a 40”.

Depois, Flávio voltou a telefonar para Birigüi, a quem chamou de “amigo”, e pediu a que ele que, ao depor, não se esquecesse da conversa que tiveram. “Não se esqueça da nossa conversa, entendeu?”, disse Flávio, que continuou: “Eu te garanto o que nós conversamos, e a forma, entendeu? É o melhor para você aí”.

Em outro diálogo, Flávio fala sobre qual deveria ser a orientação correta ao doleiro. “Entra mudo e sai calado”, disse ele.

Num outro dia, pai e filho reclamam que a negociação foi articulada de forma equivocada, falaram de um “velhinho de Minas Gerais”, que foi presidente do tribunal, como uma das possíveis pessoas que poderiam ajudá-los.

Obras

Para o Ministério Público, o dinheiro que abasteceu contas no Exterior foi desviado de obras públicas durante a gestão de Maluf na Prefeitura de São Paulo, entre 1993 e 1996. O suposto esquema teria continuado na administração do sucessor dele, Celso Pitta (1997-2000).

Maluf, Flávio e Pitta foram indiciados pela Polícia Federal sob acusação de crimes de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal e corrupção. O indiciamento acontece quando o delegado acredita ter reunido provas suficientes contra o investigado.

Na Justiça criminal, Maluf é réu em um processo criminal por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, ao lado da mulher, Sylvia, dos filhos Flávio e Lígia, de um genro e de uma nora.

Na esfera cível, a família responde a uma ação de autoria da Promotoria da Cidadania de São Paulo, que pede a devolução dos US$ 446 milhões que eles teriam movimentado no Exterior e o pagamento de multa em igual valor.

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