Se optar por ir de avião, em três horas e meia, você terá a sensação de ter entrado em outra dimensão. Foi a impressão que tive quando em Santa Cruz de la Sierra descemos eu e meus dois amigos: Robson e Carlos Cubas. Saímos de Guarulhos com destino à Bolívia.
De pronto, desembarcamos no aeroporto e fomos para uma rodoviária lotada de gente. A expressão forte estampada no rosto dos bolivianos estava me deixando encafifado. Não era medo, tampouco incômodo. Era algo que nunca tinha vivido antes. Mais tarde eu descobriria que era apenas o olhar daqueles indígenas.
De Santa Cruz fomos para Potosí, uma cidade boliviana que está entre as mais altas do mundo, a cerca de 4.000 metros de altitude acima do nível do mar. Basicamente, toda a nossa viagem esteve nivelada por aí, variando entre 2.000 e 4.500 metros.
Em Potosí não conseguimos chegar de ônibus. Tivemos de descer ainda na estrada e caminhar um bocado até achar um táxi, pois havia um bloqueio de mineradores que impediam o caminho. O bom é que tudo é muito barato. Sim! Nosso dinheiro vale bastante lá. Mas vale lembrar também que o serviço vale o quanto pesa. Não imagine que até mesmo em La Paz — a maior cidade onde estivemos — a qualidade do serviço chegue aos pés dos oferecidos aqui, por exemplo. Cada vez que precisávamos nos locomover era uma aventura. Um esquema “off-road”, pois as estradas são quase todas de terra, com exceção apenas do Chile, onde existem pistas muito bem sinalizadas.
O grande segredo de viajar de mochila - como foi o nosso caso - é estar atento a tudo, mas sem se perder nas novidades. Nós três nos unimos, então, para tentar aproveitar ao máximo todos os lugares, uma vez que não tínhamos guia para nos mostrar as curiosidades. Nessa viagem, conhecemos coisas mirabolantes e, principalmente, costumes diferentes. Como todo turista, pegávamos nossa bagagem cultural e tentávamos aplicar naquele povo. Não dava. O jeito de ver as coisas, os costumes e as reações são totalmente diferentes. Nesses três países pelos quais passamos se encontra o berço da cultura Inca. Mas não bastando a herança da fisionomia característica desse povo, eles ainda carregam alguns valores que se diferem da nossa mistura cultural brasileira. Trata-se de um povo que tem uma história de colonização exploratória parecida com a daqui, no entanto, sobre uma etnia homogênea. São todos filhos de índios que trazem na face costumes tribais.
É um povo muito confiável e de um caráter fortíssimo. Lá as coisas têm algumas peculiaridades, tanto nas ruas da Bolívia quanto nas do Peru, por exemplo, os acordos são todos fechados na confiança. No começo eu estranhei, pois a gente encomendava um serviço turístico e as pessoas não davam nenhum comprovante. Anotavam apenas o endereço de onde estávamos dormindo. Mas em nenhum dos países tivemos problemas com isso, principalmente por efeito de uma dignidade expressiva que eles têm. Se não pudessem nos atender, diziam de pronto. Sem essa de tentar dar um jeitinho.
Quando estávamos passando pela Bolívia, o país estava no auge dos conflitos sociais. Era possível identificar um pensamento unificado. As pessoas unidas por um objetivo só. E o que achei a coisa mais curiosa, uma reciprocidade muito grande. Os manifestantes tinham o apoio total da comunidade e principalmente do exército, que facilitava o trânsito pelas ruas. Em La Paz, vivi uma situação muito marcante. Uma senhora me pediu esmola em frente a uma catedral, e não dei. Em seguida, um garotinho perguntou se poderia engraxar meu tênis. Obviamente não tinha como, neguei. Então a criança sentou no caixotinho e ficou me olhando. Depois deu de ombros e pediu para eu dar esmola para a senhora que havia me pedido, pois ela não tinha como ganhar dinheiro. Isso é um sintoma de consciência social configurado pela situação. A pobreza é bastante grande e eles se ajudam para sobreviver juntos.
Paisagens
Começando pela Bolívia mesmo, as paisagens são indescritíveis. O clima extremamente seco apresenta um cenário maravilhoso. As cores contrastantes do céu com a terra no deserto são fascinantes. O passeio mais curioso que fizemos foi pelo deserto de sal, onde fica o hotel, feito também de sal. Imperdível!
O Norte do Chile é místico. Mais uma vez o céu azul, azul e azul, que se encontra no infinito com as montanhas de cor Adobe, valem a visita. Uma das tardes em San Pedro de Atacama conseguimos ver o pôr-do-sol num mirante que se chama Vale de la Luna. Incrível!
Para completarmos o passeio, no Peru acabamos conhecendo um lugar que se chama Cânion Del Colca. Lá pudemos ver um vale onde existem diversos ninhos de Condor. A imensidão do local é de cair o queixo. Inacreditável!
Vale a pena!
Se você que está lendo esse relato não agüenta mais a rotina e quer fugir dela de maneira diferente, ao invés de encher o carro de cerveja e ir para a praia, vá para um desses três países em direção ao centro da cultura Inca. É mais barato do que se pode imaginar e divertido demais. E se a opção for partir de mochila, a emoção é garantida. Nessa região em especial, o mundo é visto de outro jeito. É uma ótima oportunidade para se deixar contaminar por uma mentalidade diferente. E antecipo: nem será preciso se esforçar para isso. Só não deixe de conferir nos noticiários como estará a situação política do lugar onde deseja conhecer, para evitar desconfortos.