Política

Homônimos da crise testam paciência

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Paciência, muita paciência. É desta maneira que os homônimos da crise política brasileira enfrentam diariamente as piadinhas e gracejos de amigos e até mesmo de estranhos, que não perdem a oportunidade de relacionar seus nomes aos dos envolvidos no escândalo político que vitima o País. Para evitar o esgotamento do bom humor e das amizades, brasileiros comuns batizados de Severino, José Dirceu e Marcos Valério preferem entrar no clima das gozações e contribuir com o anedotário político.

Afinal, eles não têm culpa de seus nomes serem grafados diariamente nos jornais e revistas, além de aparecerem nas vozes de locutores de emissoras de rádio e TV espalhadas pelo Brasil. A chacota pode ser ainda mais intensa se alguma particularidade da “vítima” o aproximar de seu xará. É o caso do pedreiro Severino Cavalcanti de Barros, 46 anos, morador de Bauru.

Afastado das denúncias do esquema de corrupção que invadiu Brasília nos últimos meses, o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP/PE), homônimo do pedreiro, ganhou espaço na mídia pela figura folclórica que é. Embora tenha escapado do mensalão, acabou se complicando, nos últimos dias, em denúncias que envolvem o diminutivo do esquema, o mensalinho.

Além do próprio nome, o Severino de Bauru mantém forte vinculação com seu xará de Brasília: eles são conterrâneos do mesmo município pernambucano, João Alfredo. O alívio do pedreiro é a certeza de que não há nenhum grau de parentesco com o presidente da Câmara Federal. Sem visitar a terra natal há mais de 20 anos, ele diz que há três famílias na cidade com sobrenome Cavalcanti.

“Mas não existem laços consangüíneos entre elas”, afirma. Radicado em Bauru há mais de dez anos, o pedreiro diz ser impossível escapar das brincadeiras dos amigos e da fúria sarrista dos brasileiros. “Até minha mulher não perdoa”, conta. O Severino bauruense garante que é uma pessoa tolerante, a ponto de agüentar todas as provocações. “Mas confesso que, às vezes, fico meio chateado. Afinal, o Severino de Brasília não é um bom exemplo de pessoa”, avalia.

O pedreiro comenta que recentemente precisou dizer o nome para o preenchimento de ficha no núcleo de saúde de seu bairro. “Me senti envergonhado”, relata. O Severino bauruense, porém, não está solitário no seu sentimento de repulsa diante das gozações dos amigos e do constrangimento de ter o mesmo nome de um político enroscado em denúncias de falcatruas.

O comerciante Marcos Valério Carvalho, 44 anos, também sofre na pele o que é ter o mesmo nome de um publicitário acusado de distribuir cheques de altos valores a parlamentares da base aliada do governo, como forma de garantir a aprovação de projetos de interesse do Palácio do Planalto. Ele é homônimo do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, dono da agência SMPB, que por quase dois anos dominou as contas de publicidades das principais estatais do governo federal.

Distante de qualquer conta bancária milionária, o comerciante diz que recebe as gozações sem estresse, embora confesse que, às vezes, não está disposto a embarcar no clima de piadas. “O brasileiro, por natureza, gosta de brincar muito”, comenta. Na avaliação dele, há o lado positivo da situação. “Estou sempre sendo lembrado. As pessoas me dizem: ‘Me lembrei de você hoje’. E aí vem a explicação”, relata.

O Marcos Valério bauruense conta que sua esposa foi a primeira pessoa que vislumbrou que seu nome seria motivo de brincadeiras. “Ela me disse: ‘Você vai virar motivo de gozação’. E não deu outra”, afirma. Entre os amigos, o comerciante é mais conhecido pelo apelido, Lelo. “Poucas pessoas me chamam de Marcos Valério. Mas os amigos, por gozação, não perdem a oportunidade.”

Entrar no clima

Detentor de um feeling apuradíssimo, o aposentado José Dirceu Facina, 65 anos, morador de Marília, garante que seu xará, o ex-ministro e agora deputado José Dirceu (PT/SP), nunca o enganou. “Nunca tive simpatia por ele porque não me inspirava confiança”, explica. As mais de seis décadas de vida ensinaram a Facina que o estresse resultado de provocações fúteis é um componente que pode ajudar a encurtar os batimentos cardíacos e, conseqüentemente, adiantar a morte.

“Quando se referem a mim lembrando do deputado, procuro entrar no clima. Primeiro, digo que eu não tenho nada a ver com esse sujeito. Depois, se a conversa deriva para a questão do dinheiro, prometo à pessoa que vou tentar manobrar melhor para acertar a situação dela. E com isso todo mundo ri e fica feliz”, conta.

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