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Bolas, para a objetividade


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O governo Lula está tão atrapalhado ultimamente que errou ao mandar para o Congresso mensagem onde anuncia que a alíquota máxima do IR cairia dos atuais 27,5% para 25%. A lei de 2003, na qual os técnicos da Secretaria de Orçamento Federal se basearam para redigir o texto, foi revogada por outra, este ano, e ninguém percebeu. Nem o pessoal da Receita. O engano se deu justamente no momento em que Severino Cavalcanti, o estadista de João Alfredo, discursava na ONU. Mais uma prova de que este é o País das oportunidades... e dos oportunistas. Alguém já disse que o Nordeste se divide entre Cavalcantis e Cavalgados.

Pena que Severino não tenha lido, ou ao menos ouvido falar do relatório da ONU do mês passado que denunciou estar o Brasil entre os países mais cruéis em distribuição de renda do mundo. O fato de os 10% mais ricos abocanharem renda 32 vezes superior aos 40% mais pobres não resulta do “déficit da Previdência”, como, de forma geral, foi levianamente divulgado. Essa é uma lenga-lenga do governo que finge preocupação com o social quando Cofins e Pis-Pasep, por exemplo, são surrupiados da seguridade social para compor um falso superávit destinado a pagamento de juros de uma dívida que só faz crescer.

Ninguém foge à profecia de Lucas aqui mencionada no domingo passado: “Tudo o que está escondido será descoberto”. Eis que aparece um dono de restaurante, falido, para acabar com a brincadeira que elegeu Severino “só para chatear o Lula”. Este, de vingança, condecorou o presidente do “mensalinho” com a Comenda da Ordem do Rio Branco. Pelo menos esta ninguém tira e o Severino poderá ser tratado de “comendador” lá no Agreste, já que deputado, se vergonha houver, ele não vai ser mais.

“Vossa Excelência é um desastre!” -disse o Gabeira. Escolheu a palavra perfeita: é de desastre que se trata, no sentido que já tinha na Idade Média, de ser “contra os astros”. Os antigos pensavam que as grandes desgraças e calamidades decorriam de desordens entre os astros, impedidos momentaneamente de zelar pelas coisas terrenas. “Mas um desastre condecorado” – poderia ser hoje a resposta severina. No entanto, resolveu redargüir com “insignificância” para definir a condição do seu igual na Casa. Gabeira não tem cargo. Não representa ninguém, além de si mesmo. Enganou-se mais uma vez o presidente da Câmara. Milhões aplaudiram Gabeira que foi capaz de libertar o grito sufocado na garganta dos brasileiros. O notável filólogo Deonísio da Silva ensina os vários sinônimos de “insignificância”: borra, chorumela, droga, mexinflório, mixaria, ninharia, nulidade, porcaria, titica, trampa e nonada. Lembram-se do início da obra-prima de João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas? “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja”.

Veja o Maluf! Encontrou o seu doleiro disposto à delação premiada. Finalmente parece que o homem das propinas milionárias será finalmente pego. Mas ainda tenho minhas dúvidas. Ninguém segura esse bagre ensaboado. “Dinheiro no exterior? É mentira!” Ótimo o José Simão quando assegura que o Maluf realmente diz a verdade: o dinheiro nos paraísos fiscais não é dele... É nosso.

Quase que simultaneamente à soneca tirada por Severino no plenário da ONU o presidente Lula, perante uma claque enviada do Brasil pelos empreiteiros, selava no Peru a construção de uma estrada para o Pacífico. Gastos orçados em mais de 1 bilhão de reais ( os 20% de propina já estão computados?), enquanto o estado das rodovias brasileiras sequer dão passagem para os nossos portos do Atlântico.

Ah, que bom escrever com tantos adjetivos lançados como rajadas contra os inimigos do bem público. Nós, jornalistas, fomos condenados à eterna escravidão dos substantivos, em nome da objetividade. Ainda bem que o ministro Celso Mello, do Supremo Tribunal Federal, abriu a porteira de par em par: a imprensa tem o direito não apenas de manter a sociedade informada, mas também de fazer críticas “ainda que contundentes e sarcásticas”. Acelerando na curva, o ministro acentua que o direito de crítica é ainda mais legítimo quando dirigido “a figuras públicas, com alto grau de responsabilidade na condução dos negócios de Estado”. Está aberta a temporada de caça aos corruptos.(O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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